quinta-feira, 7 de março de 2019

Sozinho no Caminho


Depois de vários dias sozinho no Caminho de Santiago, isto é, sem parceria pessoal de qualquer tipo, você acaba a refletir bastante sobre o papel dos relacionamentos afetivos na sua vida. Interessantemente, durante a jornada não senti nenhuma forma de carência capaz de abalar ou gerar alguma sensação emocional inconveniente. A demanda física, a constante mudança de cidades, de hospedarias, de realidades faz você não ter tempo para essas focar-se nessas demandas afetivas.
Não que durante a jornada não houve momentos de introspecção e reflexão sobre o assunto ou situações em que os sentimentos são aflorados perante as dinâmicas da Psique do Caminho. Todavia, não será algo a demandar que se busque companhia líquida, se o peregrino estiver realmente conectado ao processo psíquico da jornada. Se não estiver, a carência afetiva poderá indicar um mecanismo de fuga, a canalizar suas energias e foco de consciência, para fora daquilo que realmente seria o centro da jornada.

Assim se passaram os primeiros 30 dias, sem maiores problemas. Talvez alguém que nunca tenha estado em introspecção ou não esteja acostumado a desconectar-se do mundo e focar-se em si, poderá sofrer até adentrar a esse equilíbrio afetivo introspectivo. Dias seguidos de chuva, a perda da cachorrinha amada, o silêncio da jornada, tudo isso acabou sendo parte da aprendizagem e da reflexão do caminho. 

Desse modo, se a carência afetiva, o sentimento de solidão ou a necessidade de busca de sexo estiver no centro de sua consciência, a desequilibrar seu self, utilize tais ocorrências enquanto matéria-prima de suas reflexões do dia e durante suas anotações no diário de bordo. Isso seria algo normal de sua vida ou apenas ocorrido ao se realizar o Caminho sem companhia? Você é uma pessoa carente? Costuma ser dependente de afeto? Quais os motivos de sua necessidade de sempre estar em companhia?

Responder a essas questões permite que se adentre ao campo reflexivo de sua vida afetiva e analise as ocorrências e a forma como se lida com o amor. Para todos esses casos, o Caminho de Santiago pode ser um ótimo espaço de terapia e centramento individual, na modificação dos hábitos e na criação de novas formas saudáveis de se relacionar amorosamente.

Isso não quer dizer que você não possa manter contato diário com seu parceiro que ficou no Brasil e o acompanha à distância, desde que esse contato não seja para você sufocar sua experiência e querer logo voltar.

Libertar-se das dependências não significar abandonar a busca pelo amor, nem se tornar um eremita solitário das cavernas. Significa apenas criar o equilíbrio e centramento suficiente a não depender de ninguém.

Estar sozinho exige que você se relacione, comunique-se com as outras pessoas e seja assertivo nas decisões que a todo momento deverão ser tomadas durante a jornada. Tudo passa a depender de sua própria escolha e isso é um experimento positivo a ser vivido. Como o próprio termo criado por Jung já diz, individuação é um processo individual, personalíssimo, por meio do qual a pessoa avança em sua identidade existencial e centramento.