Depois
de vários dias sozinho no Caminho de Santiago, isto é, sem parceria pessoal de
qualquer tipo, você acaba a refletir bastante sobre o papel dos relacionamentos
afetivos na sua vida. Interessantemente,
durante a jornada não senti nenhuma forma de carência capaz de abalar ou gerar
alguma sensação emocional inconveniente. A demanda física, a constante mudança
de cidades, de hospedarias, de realidades faz você não ter tempo para essas focar-se
nessas demandas afetivas.
Não que durante a
jornada não houve momentos de introspecção e reflexão sobre o assunto ou
situações em que os sentimentos são aflorados perante as dinâmicas da Psique do
Caminho. Todavia, não será
algo a demandar que se busque companhia líquida, se o peregrino estiver realmente
conectado ao processo psíquico da jornada. Se não estiver, a carência afetiva
poderá indicar um mecanismo de fuga, a canalizar suas energias e foco de
consciência, para fora daquilo que realmente seria o centro da jornada.
Assim se passaram os
primeiros 30 dias, sem maiores problemas. Talvez alguém que nunca tenha estado
em introspecção ou não esteja acostumado a desconectar-se do mundo e focar-se
em si, poderá sofrer até adentrar a esse equilíbrio afetivo introspectivo. Dias seguidos de
chuva, a perda da cachorrinha amada, o silêncio da jornada, tudo isso acabou
sendo parte da aprendizagem e da reflexão do caminho.
Desse modo, se a
carência afetiva, o sentimento de solidão ou a necessidade de busca de sexo
estiver no centro de sua consciência, a desequilibrar seu self, utilize tais
ocorrências enquanto matéria-prima de suas reflexões do dia e durante suas
anotações no diário de bordo. Isso seria algo
normal de sua vida ou apenas ocorrido ao se realizar o Caminho sem companhia?
Você é uma pessoa carente? Costuma ser dependente de afeto? Quais os motivos de
sua necessidade de sempre estar em companhia?
Responder
a essas questões permite que se adentre ao campo reflexivo de sua vida afetiva
e analise as ocorrências e a forma como se lida com o amor. Para todos esses
casos, o Caminho de Santiago pode ser um ótimo espaço de terapia e centramento
individual, na modificação dos hábitos e na criação de novas formas saudáveis
de se relacionar amorosamente.
Isso não quer dizer
que você não possa manter contato diário com seu parceiro que ficou no Brasil e
o acompanha à distância, desde que esse contato não seja para você sufocar sua
experiência e querer logo voltar.
Libertar-se das dependências
não significar abandonar a busca pelo amor, nem se tornar um eremita solitário
das cavernas. Significa apenas criar o equilíbrio e centramento suficiente a
não depender de ninguém.
Estar sozinho exige
que você se relacione, comunique-se com as outras pessoas e seja assertivo nas
decisões que a todo momento deverão ser tomadas durante a jornada. Tudo passa a
depender de sua própria escolha e isso é um experimento positivo a ser vivido. Como o próprio
termo criado por Jung já diz, individuação é um processo individual,
personalíssimo, por meio do qual a pessoa avança em sua identidade existencial
e centramento.