Como
visto, o Caminho de Santiago de Compostela, na verdade, é composto de vários
caminhos que vão convergindo de toda a Europa, até se chegar a Espanha e
depois, à cidade de Santiago de Compostela. Logo, todos eles são válidos e
aceitos enquanto jornada de peregrinação, pois tem o mesmo destino: Santiago de
Compostela.
Há ainda a
possibilidade de estender a jornada até Finesterra, por mais 100 Km a oeste,
depois de Santiago, tido para alguns, como o verdadeiro ponto final da jornada,
quando se chega ao litoral mais ao ocidente de Espanha.
Repisando, para
obter a Compostelana ou Compostella, você deverá escolher qualquer desses
caminhos e percorrer, no mínimo, caminhando 100 Km ou pedalando 200 Km. Em
termos de peregrinação e imersão na Psique do Caminho, cada processo é um
processo, mas esse seria o mínimo ideal a ser recomendado terapeuticamente.
Além disso, não esqueça de programar-se para permanecer, ao menos, dentro do
ritual de sete dias de passagem pelo Caminho.
Ao menos sete dias
em jornada para que se tenha tempo à desconexão, introspecção, reconexão e reelaboração
pessoal, como será explicado mais a frente. Aos peregrinos de
primeira viagem, com poucos recursos, recomenda-se fazer a escolha entre o
Caminho Francês ou o Português, nas distâncias e dias mínimos de cada jornada
respectivamente. Em sendo de bicicleta, a começar da cidade do Ponferrada ou
Porto. Em sendo a caminhar, começando da cidade de Sarria ou Valença do Minho. Entre fazer de
caminhando ou de bicicleta, apesar de ser uma escolha pessoal, o ideal seria
priorizar a caminhada, de primeira vez, em caso de dúvida.
Por outro lado, há
aqueles que demandam o desejo de percorrer todo o trajeto mais conhecido do percurso
conhecido como Caminho Francês, de cerca de 800 Km, entre San Jean Pied de Port
até Santiago de Compostela. Desde que se tenha tempo e recursos, essa escolha
por trajetos e meios é algo mais subjetivo e aberta à diversidade de propostas
e demandas individuais.
Há
que se evitar megalomania da jornada, qual seja a de exigir-se o máximo da
jornada, no menor período de tempo possível. Por exemplo, fazer tais 800 Km do
Caminho Francês em cerca de 15 dias, ou seja, percorrer mais de 50 Km/dia, na
média. Tanto para bicicleta, quanto mais para caminhada, isto seria um desafio
extremo somente apto aos mais preparados.
Megalomania, ou
mania de grandeza, não condizem com a Psique do Caminho, especialmente como
arquétipo do peregrino, daquele que adentra à jornada não enquanto um desafio
físico, mas sim, espiritual e existencial.
Até porque, um
verdadeiro megalomaníaco raiz, deveria optar por iniciar sua jornada nos
rincões da Europa, desde as trilhas advindas da Rússia, ou ainda Suécia, para
assim provar seu valor físico e fantasia de onipotência pessoal.
O arquétipo da
Psique do Caminho, pelo contrário, tem em quem recebe o chamado, um processo
inicial de humildade perante a missão recebida. Uma aquiescência íntima perante
as aprendizagens que virão no transcorrer de sua imersão pessoal. Assim, medir-se
como melhor ou mais dedicado peregrino pela distância a ser feita, diz muito
sobre seu ego do que sobre introspecção à Psique do Caminho. Você está fazendo o
caminho para satisfazer seu narcisismo a ser publicizado ou para se aprofundar na
sua busca de sentido existencial íntimo?
Não há nada de
errado em trilhar o caminho por uma questão superação de desafios esportivos ou
mesmo por lazer turístico, desde que se tenha consciência de que essa não seria
uma jornada de imersão na Psique do Caminho.
Para
quem aceita o chamado em missão espiritual, a toada já começa diferente, pois
aí a distância passa a ser uma representação de devoção ou de aprofundamento na
imersão na metafísica de sua psique individual. Em
todos os casos, independentemente do tamanho de cada jornada, o Caminho terá
uma dimensão adequada às suas possibilidades de enfrentamento e introspecção.
Outrossim,
nada lhe impede de retornar ao Caminho em outras oportunidades, para novos
desafios e aprofundamentos por outros pontos de vista, por outros trajetos
maiores ou por novos motivos existenciais. Essa humildade no
olhar ao Caminho de Santiago de Compostela é essencial para se superar a
neurose da competição individual por resultados materiais.
Há pessoas que só
conseguem preencher seu vazio existencial ao se comparar e se sentir melhor do
que os demais e isso não passa de preenchimento da baixa estima. Outrossim, quem
corre, quem mede, quem compara, muitas vezes pode estar a utilizar-se destes
mecanismos de racionalização para aplacar sua imersão ao que precisa ser
enfrentado nesta jornada por sua psique.
O
desafio do Caminho é sempre algo personalíssimo, seu, interno e com demandas
pessoais a serem enfrentadas antes, durante e depois da jornada a ser concluída. Assim, todos
convergem a Santiago de Compostela, onde a única avaliação possível é interna,
sobre as mudanças a melhor, ocorridas em seu ser, que foram implementadas após
a jornada. E isso não se mede por quilômetros percorridos ou comparando-se com o
ritmo dos outros peregrinos.
Quem se atentar, observará
na jornada, a dinâmica interna que, no fim do dia, não te fará melhor ou pior
do que seus companheiros de peregrinação. Não há egocentrismo, egoísmo e
individualismo que dure a tantos dias de desforço físico, psíquico e mental
intensos. Aos poucos, nivelam-se todos enquanto seres humanos em uníssono
caminhar ou pedalar.
O maior, o melhor,
o campeão competitivo, em se tratando de Caminho de Santiago de Compostela, são
meros espelhos das sombras da vida cotidiana. Ao perceber tais sombras na
jornada, será o momento de iniciar sua reflexão do porquê delas existirem em
sua vida.
E se alguém passar
por você em ritmo de competição, deixo seguir. E se alguém perguntar onde você
iniciou sua jornada, responda com uma pergunta sobre como está sendo para ele a
experiência do Caminho.
Conseguir manter-se sozinho em equilíbrio, poder pensar na sua vida, sentir o aroma das flores, recobrar a paz interior, tudo isso não se mede em quilômetros, mas sim em epifanias e sensações de contentamento e bem-estar, que a cada dia a Psique do Caminho possibilita.
