segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Os Símbolos do Caminho

São quatro os símbolos existentes no Caminho de Santiago e que representam o arquétipo ou a Psique do Caminho, associados automaticamente à jornada. O primeiro deles é a seta amarela. Ela é a indicação da existência do Caminho. Por mais que indique a sequência certa a seguir, em certos casos, ela apresentará derivações, entre vias principais e alternativas.
Mochila e os bastões cruzados representam a Ordem do Caminho
Em todas circunstâncias, assim como na vida, todos os caminhos são certos. O que mudam são as opções de seguir essa ou aquela rota. Todas levam ao mesmo lugar ao final e, mesmo que uma seja mais longa que a outra, as aprendizagens e desafios estarão presente em ambas.

Você até poderá ignorar as setas amarelas e até seguir pelas estradas principais, por exemplo, em um dia de intensa chuva ou quando estiver cansado, mas poderá retornar à trilha das setas amarelas assim que decidir.

Analogicamente à existência, todos buscam uma direção certa a seguir. Nesse sentido, toda vez que há um caminho traçado, a vida fica mais fácil de ser galgada, passo a passo até se chegar ao objetivo programado. 

Pensar sobre a direção certa de seu caminho após terminar a jornada é uma das tarefas presentes na Psique do Caminho e ela está simbolizada nas setas amarelas.

Até mesmo antes da jornada, quem recebeu o chamado ao Caminho, já terá vivências e insights sobre a importância das direções adotadas na vida. Tudo tem um fluxo e todo fluxo segue uma direção de realizações. Medite sobre isto, caso tenha a pretensão de futuramente experenciar a saga do Caminho de Santiago em sua vida.

O segundo dos símbolos do caminho é a concha, a qual serve como identificação espiritual do peregrino. Surgiu na idade média como significado de proteção ao peregrino durante sua ida, e também como forma de comprovação do cumprimento de sua jornada de retorno de Finesterra (para os que avançam sua jornada para além de Santiago).

Hoje se pode comprar conchas de plástico barato em qualquer bodega do Caminho, mas nem por isso elas perdem sua simbologia de pertencimento à jornada.

O importante sobre a concha não é ela estar presa na sua mochila, essa é somente uma representação visual. Sua representação arquetípica está no acesso à introspecção, à face “ying” (feminina) da psique humana em contrato com o solo sagrado a ser percorrido, na visão de um retorno à essência, ao local de partida da vida.

Na prática, sua força será sentida durante toda a jornada, com a reconexão do peregrino às energias imanentes da natureza a sua volta, ao “Gaia”, a representar a “Mãe Terra”. Trata-se de uma conexão aos sentidos do morrer e renascer possibilitados a parte da noção de que partir e chegar são essencialmente um ciclo contínuo do Cosmos.

Aqui há que se intuir sobre a reflexão de como se existir neste planeta, do seu papel e de como se retribuir com gratidão e proteger a quem lhe abriga nesta missão.  

O terceiro símbolo do caminho é o bastão, a indicar a força “yang” do Caminho, enquanto desforço físico necessário a mover a vida. O bastão é o auxílio do corpo, a transformar energia muscular em impulso, na medida exata para mover à frente o peregrino, nos desafios diários da longa jornada pela frente.

O simbolismo do bastão demonstra que, toda o movimento humano requer de certa agressividade comedida para seguir em frente. Entretanto, não se deve confundir essa ação com violência, que é seu excesso, cuja sintomática indica uma perda do controle da razão.

De outro polo, a completa anulação da energia “yang” implicaria na depressão, na perda do impulso à frente. Trata-se de manter acessa a chama da vida, os impulsos essenciais ao desejar e ao viver, enquanto os sonhos e as motivações íntimas de avançar sempre.

Quando ausente ou em excesso, em depressão ou em violência, nota-se um conflito no desbalanceamento das forças “yang”, perante as forças “ying” de seu ser.

Portanto, deves utilizar o Caminho para uma introspeção do equilíbrio essencial dessas forças básicas da vida. Toda vez que o bastão tocar ao solo, em sua jornada, estará provocando uma conexão dessas forças e terá um campo de introspeções aberto.

Utilize com consciência tais símbolos do Caminho, sem desdenhar de sua força arquetípica a partir de um materialismo ceticista, ou estará a bloquear as possibilidades psíquicas de sua jornada.

Por último, um dos símbolos mais pessoais da caminhada será a sua mochila escolhida. Sua presença se dá em quase todos os peregrinos, porém, em cada qual ela terá a representação exata de cada personalidade.  

A mochila simboliza o apego/desapego. Ou seja, a capacidade individual de escolher e levar consigo aquilo que é deverás importante para si. Em geral, peregrinos de primeira jornada tendem a se arrepender de itens elegidos a sua mochila ou até mesmo sobre o modelo escolhido.

Será processo psíquico inerente ao desgaste físico da jornada uma reavaliação dos pesos indevidos carregados e que poderiam ser evitados. Alguns até irão descartar coisas pelo Caminho. Outros, despachar suas bagagens de parada a parada, com alívio emocional.

Refletir sobre a lógica do apego/desapego permite uma análise global de tudo o que é desnecessário e que se carrega em desequilíbrio pela vida. Em última instância, quais realmente são as coisas necessárias a se priorizar para se obter felicidade, conforto e equilíbrio?