Peregrino
deve sofrer? Fazer o Caminho de Santiago de Compostela é uma provação? Quem faz
o Caminho está lá para se resolver das culpas, pecados, purgar e obter perdão
por seus erros terrenos?
Veja bem, se isto
faz parte do seu universo pessoal religioso, siga sua crença e cumpra o Caminho
da maneira como bem entender. A vida é sua, suas opções, suas escolhas. Não
concordaremos aqui, pelas nossas.
Fora o espaço das
crenças pessoais, existe na tratativa psicanalítica a questão do “masoquismo”,
entendido como o prazer em sofrer. Parece algo paradoxal, mas está presente
dentre os repertórios possíveis da psique humana.
O
Caminho de Santiago de Compostela hoje é uma experiência ecumênica, cultural e
predominantemente psíquica, de cunho existencial e espiritual.
Até mesmo um ateu
poderá optar por fazer essa jornada. Agnósticos e espiritualistas diversos de
todas as linhas procuram o Caminho em termos de busca existencial e isso também
faz parte desse itinerário e sua mística.
Culpa e purgação,
que se refletem na necessidade pessoal de autopunição, não fazem parte da
proposta cultural do Caminho de Santiago de Compostela, nem daqueles que a
fizerem em busca de iluminação de São Tiago.
Também não se deve
confundir a humildade e devoção do peregrino, com a necessidade de sofrimento. Em
nossa visão, há que se fazer o Caminho com simplicidade e humildade, mas com o mínimo de bem-estar, sem
masoquismos.
Se estiver apegado às ideias de sofrimento e isso lhe causar incômodo e desforço a maior durante a jornada, deve verificar durante a jornada se este não é um sintoma de uma tendência inconsciente à autopunição, culpas, remorsos que carrega consigo, do passado.
Não se deve
confundir masoquismo com o desafio físico, emocional e mental que tal jornada,
de per si, exige de qualquer ser humano de porte e preparo médio. Todos serão
testados e terão suas provações de bravura na jornada, mas isso não significa desejar
sofrer. Isso não retira o
direito de uma opção pela jornada em purgação, mas que fique claro nossa
oposição.
Calçados
incorretos, mochilas pesadas e lesões causadas por desforço acima de suas
possibilidades, são indícios de que você não fez as opções técnicas corretas, não
respeitou seus limites corporais ou foi masoquista.
Em Psicanálise, isso
requererá sua análise atenta sobre o ocorrido, para verificar se não há
qualquer indício indesejado de autopunição. Reflita sobre essas ocorrências
durante o percurso. O respeito à
própria casa, ou seja, ao próprio corpo, é essencial a quem faz a jornada uma oportunidade
de júbilo e busca existencial. No final do dia, há que se terminar a jornada
com conforto e em boas condições. Satisfeito e contente por ter vencido mais um
dia.
Assim você
encontrará a maioria dos peregrinos ao final do dia: energizados com as
endorfinas do desforço físico realizado e abertos à amizade e conversas. Se houve algum
sofrimento corporal, há que se corrigir de imediato aquilo que ocorreu. Se
aconteceu algum desconforto emocional, inicie sua autoterapia, anotando no seu
diário de bordo, o ocorrido, as possíveis causas e o que veio à tona naquele
determinado dia.
Existe algum erro
do passado ou algum sentimento de culpa detectável? Se existe, procure primeiramente
verificar se realmente você errou, qual o grau de sua responsabilidade e qual
os atenuantes e agravantes, em razão da situação e da participação do outro envolvido
nessa ocorrência.
Enfrentar,
trazer à consciência, é a melhor saída íntima. Não abafe os pensamentos sobre o
assunto, o processo terapêutico do Caminho é exatamente para isso. Aproveite-o
para enfrentar o que precisa ser enfrentado.
Sofrer, cognitivamente, só abranda uma culpa inconsciente
enquanto a causa é abafada. O ideal, ao indivíduo saudável, não é sofrer por
algum erro, mas entender sua ocorrência e, como primeiro ato, comprometer-se a
não mais errar assim no futuro.
No segundo plano, ao
invés de culpar-se por um erro passado, assuma a responsabilidade pelo ocorrido
e veja se algo poderá ser feito, num futuro próximo, para corrigi-lo ou, dentro
do possível, mitiga-lo.Essa é uma atitude
que trará a você novamente o controle da sua situação emocional e difere em
muito a saída pela culpa e punição, que nada resolvem.
Seguindo na sua
autoanálise, se seu ato errado, puder ser corrigido, veja como isso poderá ser
feito, sem gerar sofrimento. Se somente puder ser mitigado, também siga a mesma
ideia, para fazer seu melhor possível. Se nada pode ser feito, arrume uma forma de
compensar o Cosmos ou alguém próximo, a gerar um Karma positivo.
Por outro lado,
fora tais casos, não se pode deixar de mencionar a existência dos masoquistas,
cujo prazer em sofrer não vem de causas específicas, mas sim, de uma
estruturação advinda do conjunto de vivências pretéritas.
Enquanto modelo de
prazer aprendido durante as experiências individuais de construção da
personalidade, não há nada de errado neste processo enquanto escolha íntima,
desde que não resulte em dano pessoal a si ou a outrem. Ou seja, ter prazer em
ser masoquista, não lhe isenta de limites em sua busca, pois se há
autodestruição corporal, há uma pulsão de morte pelo excesso.
Em síntese, o
Caminho deve ser uma jornada libertária a cada peregrino. Seja qual for sua
motivação psíquica, que o faça com o conforto e bem-estar possíveis, dentro de
sua natureza psíquica, religiosa ou moral.