É possível
perder-se pelos Caminhos de Santiago de Compostela? Sim, é possível. Apesar de
bem sinalizado, com símbolos, obeliscos e setas pintadas, a introspeção pode
fazer você distrair-se o suficiente a errar a trilha, ignorar um dos trajetos
indicados ou se confundir.
Podem ocorrer
situações onde são colocadas setas indicativas de hospedagens e isso pode
causar certa confusão e ocasionar que você siga o trajeto errado. Existem também
situações onde não se encontra com facilidade as setas indicativas e aí, ou se
segue o fluxo de outros caminhantes ou, em sua ausência, acaba-se fazendo uma
opção à sorte.
Apesar de serem
poucos os casos de desvio, eles serão mais fáceis de ocorrer no Caminho
Português do que no Caminho Francês, uma vez que neste último há maior cuidado com
a sinalização e mais peregrinos na jornada.
Para todos os
casos, basta seguir algumas dicas para se evitar problemas. Primeiro, uma vez
que perceba estar possivelmente fora do trajeto, olhe em volta e procure a
próxima seta ou a direção em que seguem os outros peregrinos.
Caminhe ou pedale
por mais um tempo. Se não avistar os outros peregrinos ou alguma nova seta ou
totem indicativo do Caminho, retorne pela mesma trilha até reencontrar o
trajeto a seguir. Leve sempre contigo
um celular com GPS e acesso à internet e, desde o início de sua jornada do dia,
estabeleça sua localização de partida e onde deverá chegar ao final do trajeto
estipulado.
Consulte sempre o
celular assim que se sentir em dúvida da rota a seguir ou se seguiu a um
caminho errado. Um mapa básico no bolso também ajuda nessa hora de localização,
especialmente aqueles adquiridos no local e que indicam detalhes do percurso.
Por último, pergunte
a moradores do local e peça para dizer onde está o trajeto correto. Se estiver
errado, evite pegar atalhos sugeridos. Caso não se sinta seguro, volte até
reencontrar as setas ou símbolos indicativos.
Uma vez que retorne
à rota correta e se sinta em segurança, inicie uma análise sobre o ocorrido.
Por que isso ocorreu? O que estava passando em sua cabeça, durante essa
introspecção que o faz sair da rota? Como estava sua emocional neste momento?
Havia algum assunto complexo que o poderia fazer querer sair da rota?
Na
Psicanálise, atos falhos são chamados do inconsciente sobre coisas importantes,
represadas e que somente conseguem se expor por tais situações feitas em forma
de erro, sem clareza sobre o assunto. Procure analisar
essas informações e, durante a noite, ao preencher seu diário de bordo, faça os
registros dessa ocorrência, onde ela ocorreu, o horário e o que intui ter sido
o motivo desse desvio.
Simbolicamente, perder-se
é uma chamada de atenção sobre algo importante. Trata-se de uma pista a ser
levada à sério, durante sua conexão à Psique do Caminho. Procure imediatamente
observar se algo aflorou de sua mente nesse momento. Estava a pensar em algo importante? Essa é uma pista para você desenrolar tudo o que seu inconsciente está querendo
trazer à tona.
Nesse momento, algum tipo
de resistência do tipo, “isso
foi um mero descuido”, ou “tal assunto não é importante”, ou ainda, “apenas
peguei um atalho”, devem ascender a luz amarela de sua reflexão. Lembre-se, é importante
manter sua acuidade ativa durante toda a jornada. Nos detalhes é que se apresentarão
as coisas mais importantes para sua psique. Por isso, quem faz o Caminho com
pressa, por turismo ou sem a devida acuidade, perde em muito a oportunidade.
Como o processo terapêutico em curso visa o
seu melhor, quando se erra na vida, a correção pode até exigir voltar atrás
de uma situação, para depois, poder novamente seguir em frente, da
melhor maneira possível.
Perder-se é também
uma forma de desviar de uma rota indesejada. Não no sentido de desvio da rota
física a ser seguida, mas uma forma do inconsciente dizer que, aqueles
pensamentos presentes quando se desviou, devem ser revistos.
Se a jornada é uma
representação simbólica de sua vida, quais correções de rota são possíveis e
adequadas aos novos sentidos que deve produzir para si?