Há momentos de
alegria e momentos de reflexão na jornada do Caminho de Santiago de Compostela.
Há momentos em que tudo parece estar formidável, mas também há momentos de
baixa, de ausência de conexão.
Pode haver horas no
Caminho que você se sinta totalmente deslocado, perdido ou sem motivos para
estar ali, em meio ao cansaço da jornada, desconforto e até, em certos momentos,
algum tipo de irritação. Isso será sintoma das resistências perante o processo
terapêutico em curso.
| Vista de Ponferrada |
Por mais que
existam motivações de sobra, essa sensação de descolamento, questionamentos ou
desconexão da jornada será um momento psíquico desafiador ao peregrino. Mecanismos de
defesa do ego podem emergir e o peregrino pode perder a noção de sentido de sua
missão, querer até desistir ou projetar sua irritação na própria jornada ou nos
peregrinos à sua volta.
Nessas horas, é
preciso ter claro que esta ocorrência indica que gargalos do seu processo de
autoterapia no Caminho foram atingidos. Por estar num
momento de transmutação de sua psique, de um degrau da estruturação psicológica
a outro. A depender do que estiver por vir à tona, o inconsciente irá resistir a transição, enquanto momento de
desconexão, incômodo, de falta de equilíbrio e de bem-estar.
Há
que se ficar firme, manter o foco e atenção ao que está acontecendo com você.
Trata-se da vivência de uma crise de crescimento do Caminho. Geralmente, uma
crise pode durar até a manhã seguinte ou por dias seguidos. Quando detectar sua
ocorrência, reduza o ritmo da jornada. Faça o possível para refazer suas condições
físicas, alimente-se melhor, durma um pouco mais e faça pausas em locais de
paisagens agradáveis, para refletir sobre o que está a ocorrer.
Será a hora de
focar-se em sua psique e deixar de lado a demanda de distâncias a serem cumpridas
diariamente. Procure locais com água corrente, molhe os pés, deixe as emoções fluírem
sem resistências. Há algo que precisa ser sentido? Há algo que precisa ser
tratado? Há algo que precisa ser libertado em você? Se precisar, não segure as
lágrimas, solte-se e deixe as emoções fluírem, para que se reconfigure o
necessário.
Não há que se esquecer o trabalho incessante
de sua mente para o seu melhor. São nesses momentos perante a Psique do Caminho
que se faz a conexão consciente/inconsciente e os conteúdos são integrados e reprocessados
pela mente.
Por isso, em
situações de aparente desconexão é normal o indivíduo sentir sonolência, desânimo e requerer um ritmo mais adequado a tal momento. Pode até surgir uma
necessidade de isolamento e silêncio reflexivo.
Se você está
consciente do processo terapêutico, entenderá o momento e agirá de forma
coerente a ele. Tenha paciência, persistência e resiliência em continuar o
curso do aprofundamento de sua jornada, mesmo perante esse momento de desconforto
sentido no Caminho. O que estaria em
transmutação naquele momento? Não se preocupe em ter plena consciência sobre o que
estará em transmutação em você. O ideal é pensar positivo, deixar o pensamento
fluir e não bloquear o processo, colocando-se contra a jornada negativamente.
Há pessoas que não desejam
tais vivências, por entender não suportar tais situações ao ficarem expostos às
suas emoções e traumas existentes. Alguns até poderão bloquear o chamado ao
Caminho de Santiago de Compostela, por tal exposição emocional.
Deve ficar claro
que o Caminho é uma trajetória de crescimento e desenvolvimento pessoal. Logo,
tudo o que acontecer com você na jornada, será algo passageiro e visando um fim
maior, uma melhor condição ao seu final.
Não se deve
esquecer que a Psique do Caminho contempla uma busca de sentido. Isso implica
nesse processo de mudança íntima, de superação que o indivíduo vive até
concluir sua jornada. No final das
contas, tais situações ficam apequenadas em face da vitória obtida. Então,
mesmo para aqueles que tem receio do autoconhecimento e de seus efeitos, o
Caminho de Santiago é uma oportunidade de vencer seus medos, superar-se e obter
um crescimento existencial positivo, no balanço das experiências vividas.