segunda-feira, 16 de abril de 2018

A Mudança de Referencial


Da desconexão se chega ao desapego. Do desapego se chega à reconexão e dele ao minimalismo existencial. Uma vez imerso no Caminho e feita a desconexão do mundo e da vida cotidiana deixada em suspenso, chegará a hora do início da introspecção e da mudança dos referenciais de vida.
Florzinhas no Cebreiro do Caminho.
Aqui a técnica é focar na observação das pequenas coisas logo no início da jornada pela Psique do Caminho, quando então, seus sentidos estarão aguçados ao máximo. Isso ocorre porque você estará exposto fisicamente a algo totalmente novo, o que estimulará seu cérebro a captar a realidade à sua volta, de maneira intensa.

Pequenos detalhes como cheiros, sons de passarinhos, flores e frutos, ganharão uma lente de aumento à sua frente. Esqueça a velocidade do caminhar ou do pedalar nessas horas. O importante é aproveitar essa onda inicial de conexão imanente e permitir-se mudar o referencial, para que sua mente entre no ritmo do Caminho.
   
Você será ungido pelas bênçãos da simplicidade, a ampliar sua percepção das alegrias presentes nessas pequenas coisas, muitas vezes esquecidas na correria do dia a dia. Com os dias seguidos nessa toada do foco nas pequenas coisas, seu referencial de mundo será completamente alterado para melhor.

“Vida Rara” era o nome de um sabonete cortesia de um hostal simples, no qual tomei um banho quente e revigorante, logo após enfrentar um dia de jornada com direito à tempestade, com muito vento frio. 

Só a captação desse detalhe já foi suficiente para me trazer insights valiosos sobre pequenas coisas valiosas da vida, aviltadas por um mundo focado no materialismo. Tal processo de reflexão, depois daquele dia desafiador intenso e adverso, iniciado ao ver o nome daquele pequeno sabonete, já foi a prova de estar imerso na Psique do Caminho.

A importância daquele banho quente depois da tempestade fora algo raro demais para não estar aqui neste livro. Em tempos normais de correria profissional da vida cotidiana, quando teríamos olhos para prestar atenção no nome de um sabonete de hotel e apreciar essa ocorrência?

Quantos banhos quentes e revigorantes temos acesso diariamente e não se tem mais condições de dar a importância a eles? Na era em que coisas realizações, ostentações, são a prova de sucesso e felicidade, esvaziou-se o importante senso dos prazeres existentes nas pequenas coisas.

Esse foco em somente satisfazer-se em grandes realizações, implica no sentimento de vazio e busca desenfreada por estímulos cada vez maiores e, logo, de certa feita, inatingíveis facilmente. A consequência disso, uma neurose, por vezes depressiva, enquanto sintomática das frustrações e ampliação das insatisfações. Até que ponto depressão e ansiedade não são em parte causadas por essa megalomania do existir?

Não se precisa estar dentro do Caminho de Santiago para se começar a dar importância novamente aos pequenos prazeres do dia a dia. Se você conseguir voltar a olhar às pequenas dádivas de cada dia, o valor delas, talvez possa retornar à tenra felicidade das pequenas coisas aqui e agora.

Observe as crianças, sua maneira de olhar o mundo e a felicidade que elas têm nas pequenas coisas. Se você não tem filhos, veja seu cachorrinho quando der a ele um pequeno biscoito. Ele vibrará de contentamento.   

Portanto, no Caminho ou fora dele, refaça a sua lição diária de ressignificação do contentamento existencial. Comece hoje mesmo a focar sua consciência com gratidão nas dádivas de cada dia. Um banho quente, um sorriso, o sabor da comida, a mera presença de quem você ama, momentos de paz no trabalho, o aroma de um cafezinho, tudo deve voltar a ser importante.

Tal mudança de referencial permite que o mundo material nos sirva na medida necessária e não mais que sirvamos a ele na medida do consumismo. Se isto fez sentido a você, bem-vindo um dos mais valiosos insights da Psique do Caminho.