Da desconexão se
chega ao desapego. Do desapego se chega à reconexão e dele ao minimalismo
existencial. Uma vez imerso no Caminho e feita a desconexão do mundo e da vida
cotidiana deixada em suspenso, chegará a hora do início da introspecção e da
mudança dos referenciais de vida.
| Florzinhas no Cebreiro do Caminho. |
Pequenos detalhes
como cheiros, sons de passarinhos, flores e frutos, ganharão uma lente de
aumento à sua frente. Esqueça a
velocidade do caminhar ou do pedalar nessas horas. O importante é aproveitar
essa onda inicial de conexão imanente e permitir-se mudar o referencial, para
que sua mente entre no ritmo do Caminho.
Você será ungido
pelas bênçãos da simplicidade, a ampliar sua percepção das alegrias presentes
nessas pequenas coisas, muitas vezes esquecidas na correria do dia a dia. Com os dias
seguidos nessa toada do foco nas pequenas coisas, seu referencial de mundo será
completamente alterado para melhor.
“Vida
Rara” era o nome de um sabonete cortesia de um hostal simples, no qual tomei um
banho quente e revigorante, logo após enfrentar um dia de jornada com direito à
tempestade, com muito vento frio.
Só a captação desse
detalhe já foi suficiente para me trazer insights valiosos sobre pequenas coisas
valiosas da vida, aviltadas por um mundo focado no materialismo. Tal processo de
reflexão, depois daquele dia desafiador intenso e adverso, iniciado ao ver o
nome daquele pequeno sabonete, já foi a prova de estar imerso na Psique do
Caminho.
A importância daquele
banho quente depois da tempestade fora algo raro demais para não estar aqui
neste livro. Em tempos normais de correria profissional da vida cotidiana, quando
teríamos olhos para prestar atenção no nome de um sabonete de hotel e apreciar
essa ocorrência?
Quantos banhos
quentes e revigorantes temos acesso diariamente e não se tem mais condições de
dar a importância a eles? Na era em que
coisas realizações, ostentações, são a prova de sucesso e felicidade, esvaziou-se
o importante senso dos prazeres existentes nas pequenas coisas.
Esse foco em
somente satisfazer-se em grandes realizações, implica no sentimento de vazio e
busca desenfreada por estímulos cada vez maiores e, logo, de certa feita,
inatingíveis facilmente. A consequência
disso, uma neurose, por vezes depressiva, enquanto sintomática das frustrações
e ampliação das insatisfações. Até que ponto depressão e ansiedade não são em
parte causadas por essa megalomania do existir?
Não se precisa
estar dentro do Caminho de Santiago para se começar a dar importância novamente
aos pequenos prazeres do dia a dia. Se você conseguir
voltar a olhar às pequenas dádivas de cada dia, o valor delas, talvez possa
retornar à tenra felicidade das pequenas coisas aqui e agora.
Observe as crianças,
sua maneira de olhar o mundo e a felicidade que elas têm nas pequenas coisas. Se você não tem filhos, veja seu cachorrinho quando der a ele um pequeno
biscoito. Ele vibrará de contentamento.
Portanto, no Caminho
ou fora dele, refaça a sua lição diária de ressignificação do contentamento
existencial. Comece hoje mesmo a focar sua consciência com gratidão nas dádivas
de cada dia. Um banho quente, um
sorriso, o sabor da comida, a mera presença de quem você ama, momentos de paz
no trabalho, o aroma de um cafezinho, tudo deve voltar a ser importante.
Tal mudança de
referencial permite que o mundo material nos sirva na medida necessária e não
mais que sirvamos a ele na medida do consumismo. Se isto fez sentido
a você, bem-vindo um dos mais valiosos insights da Psique do Caminho.