Uma das desconexões
valiosas possibilitadas pelo Caminho de Santiago é vivenciar o desapego
material. Essa "vibe" é logo sentida, desde o momento em que se
começa a preparar a mochila com os utensílios de viagem.
É importante levar em consideração o desforço físico a ser exigido na jornada, daí a necessidade de se avaliar bem o que deverá ser levado. Qualquer peso desnecessário será sentido, cada vez mais na jornada, um fardo a ser descartado antes do final do percurso.
Quando sentir essa
dinâmica de desconexão material, procure refletir sobre sua vida cotidiana, quantos
fardos são figurativamente assim também carregados no dia a dia? Será que se
precisa de tantos bens materiais para se viver bem?
Esse questionamento
tem muita ligação com a questão da sustentabilidade, da revisão deste modelo de
produção industrial sobre a capacidade de suporte do planeta. No Caminho,
retoma-se o contato com a natureza e observa-se que a simplicidade deve ser a
regra de condução da nossa vida material.
O desapego material
não significa abrir mão de tudo, por fanatismo radical ou coisa parecida, o que
seria atingir ao outro extremo da neurose consumista. Rever suas demandas
materiais significar revistar sua vida para que possas abrir mão daquilo que é
excessivo, desnecessário de ser carregado. Trata-se de uma forma de desconexão gradual
das coisas que não são essenciais, para se poder ter mais leveza na vida.
No Caminho, será
possível adentrar a essa dinâmica dia a dia, seja pela sensação do peso a
carregar, seja pela observação dos demais peregrinos. Com os dias imersos
na jornada, o centramento em si e na sua conexão direta com a natureza, terapeuticamente
formularão novas imagens mentais, percepções físicas e sensações emocionais
sobre o que é importante ter consigo.
Para o bem de nosso
planeta, deveremos recuperar essa essência comedida. Caso não a sinta e ainda se
encontre em resistência psíquica, procure sintonizar-se com a imagem de “São
Francisco de Assis. Ele também passou pela jornada do Caminho e lá deixou suas
pegadas.
Assim, na hora de eleger sua mochila ou os
alforjes de carga da bicicleta, pergunte-se sobre a real necessidade de tudo o
que pretenda carregar. Já durante o Caminho, pergunte-se se há ainda para, em
última instância de desapegar e doar. Por último, na chegada, avalie o que irá
trazer consigo e o que irá doar em Santiago de Compostela.
Para a vida, antes
e depois da peregrinação, quem quer se sintonizar com a Psique do Caminho deve
se focar e estudar mais a ideologia do minimalismo existencial. Por ela, ter
coisas, bens, é essencial na medida em que se faça diariamente boas escolhas. Das
coisas que precisa, se puderes, deves saber escolher o melhor, o mais durável, a
de melhor qualidade e de menor peso.
Avalie bem tudo,
antes de comprar algo. Ou seja, aprenda a saber dosar os impulsos ao consumo e,
assim, evitar adquirir coisas desnecessárias que logo serão descartadas ao lixo.
Saí
do Brasil com somente uma mala média e uma mochila, para fazer o Caminho de
Santiago de Compostela. A mala pesou 14 Kg e contou com roupas a mais, em
virtude das previsões do tempo, envolvendo chuva e frio, além do fato de que
faria a experiência em bicicleta e depois a pé.
Ao chegar à Espanha,
tive que revisar tudo de novo, tirar o que podia e despachar a mala até
Santiago de Compostela. Ao todo, restaram-me
uma calça de abrigo, 3 pares de meias, duas blusas térmicas, uma blusa corta
vento e uma impermeável, roupas íntimas e algumas camisetas. Tive ainda que
comprar um poncho impermeável para proteger a mochila e o resto do corpo.
Há vários relatos
de peregrinos do Caminho que vão deixando as coisas pelo caminho. Outros, após
a chegada a Santiago de Compostela, ainda avançam até Finesterra para realizar
o ritual mais marcante de desapego final, com a queima das roupas utilizadas na
jornada.
Quem
começar com muito peso, logo de início, bem rapidamente, vai ter uma noção clara
dessa dinâmica reflexiva sobre a carga das coisas desnecessárias, já na
primeira caminhada ou pedal, terá uma noção clara do que virá a seguir.
Ao conversar com
uma pessoa que encontrei na subida do Cebreiro (uma das maiores subidas do Caminho),
ela disse que era seu primeiro dia de caminhada e que iria revisar tudo ao
chegar no próximo albergue.
No conforto do
mundo atual, fomos acostumamos a ter muito e a carregar pela vida coisas que
pouco precisamos. Na jornada do Caminho, reaprendemos a viver, com aquilo que
nos basta para existir.
Qual o nível de
desforço e/ou desconforto que carregar tanta carga exige psicologicamente de
você, em termos de estresse, obrigações ou contas a pagar? É justificado tal
desforço? Você realmente não pode abrir mão dos excessos? Aos poucos, a jornada
permitirá a introjeção de respostas a esses questionamentos.
O simbolismo da desconexão
material é o da partida, da dessoma, da morte, quando enfim, retornaremos à mãe
terra, sem nada levarmos conosco. Uma libertação final de todos os lastros e vinculações
à matéria, um passo espiritual a ser vislumbrado antecipadamente na jornada
pelo Caminho.
Desapego material,
nesse sentido, não é uma perda, mas sim, uma libertação espiritual ainda em
vida. Trata-se de uma alforria metafórica dos fardos de consumo criados na vida
neurótica, que a Psique do Caminho demonstra não mais precisar ser assim
vivida.
O Caminho de
Santiago irá permitir essa libertação experencial a você, pelo menos por tais momentos.
E aos poucos, sentirá mais leveza espiritual. Esse é um dos
grandes aspectos importantes de aprendizagem do Caminho, saber dar valor ao que
é essencial e ao que deve ser realmente carregado consigo. Ser ao invés de ter,
riqueza em termos de experiências, afetividade, sabedoria e não em bens
materiais.
Das coisas que eu
levei comigo pelo Caminho, devido ao frio e à chuva, sei que sem elas não teria
terminado a jornada. Eram bens materiais essenciais, não desapegáveis. Quanto aos
outros, fiz bem em nos desapegos realizados na jornada.
Quando cheguei ao Brasil, em retorno à jornada, ainda vislumbrei flash desses momentos e sempre que posso, continuo a desapegar-me das coisas dia a dia.
