segunda-feira, 26 de março de 2018

Desapego Material

Uma das desconexões valiosas possibilitadas pelo Caminho de Santiago é vivenciar o desapego material. Essa "vibe" é logo sentida, desde o momento em que se começa a preparar a mochila com os utensílios de viagem.

É importante levar em consideração o desforço físico a ser exigido na jornada, daí a necessidade de se avaliar bem o que deverá ser levado. Qualquer peso desnecessário será sentido, cada vez mais na jornada, um fardo a ser descartado antes do final do percurso.

Quando sentir essa dinâmica de desconexão material, procure refletir sobre sua vida cotidiana, quantos fardos são figurativamente assim também carregados no dia a dia? Será que se precisa de tantos bens materiais para se viver bem?

Esse questionamento tem muita ligação com a questão da sustentabilidade, da revisão deste modelo de produção industrial sobre a capacidade de suporte do planeta. No Caminho, retoma-se o contato com a natureza e observa-se que a simplicidade deve ser a regra de condução da nossa vida material.

O desapego material não significa abrir mão de tudo, por fanatismo radical ou coisa parecida, o que seria atingir ao outro extremo da neurose consumista. Rever suas demandas materiais significar revistar sua vida para que possas abrir mão daquilo que é excessivo, desnecessário de ser carregado. Trata-se de uma forma de desconexão gradual das coisas que não são essenciais, para se poder ter mais leveza na vida.

No Caminho, será possível adentrar a essa dinâmica dia a dia, seja pela sensação do peso a carregar, seja pela observação dos demais peregrinos. Com os dias imersos na jornada, o centramento em si e na sua conexão direta com a natureza, terapeuticamente formularão novas imagens mentais, percepções físicas e sensações emocionais sobre o que é importante ter consigo.

Para o bem de nosso planeta, deveremos recuperar essa essência comedida. Caso não a sinta e ainda se encontre em resistência psíquica, procure sintonizar-se com a imagem de “São Francisco de Assis. Ele também passou pela jornada do Caminho e lá deixou suas pegadas.

Assim, na hora de eleger sua mochila ou os alforjes de carga da bicicleta, pergunte-se sobre a real necessidade de tudo o que pretenda carregar. Já durante o Caminho, pergunte-se se há ainda para, em última instância de desapegar e doar. Por último, na chegada, avalie o que irá trazer consigo e o que irá doar em Santiago de Compostela.

Para a vida, antes e depois da peregrinação, quem quer se sintonizar com a Psique do Caminho deve se focar e estudar mais a ideologia do minimalismo existencial. Por ela, ter coisas, bens, é essencial na medida em que se faça diariamente boas escolhas. Das coisas que precisa, se puderes, deves saber escolher o melhor, o mais durável, a de melhor qualidade e de menor peso.

Avalie bem tudo, antes de comprar algo. Ou seja, aprenda a saber dosar os impulsos ao consumo e, assim, evitar adquirir coisas desnecessárias que logo serão descartadas ao lixo.

Saí do Brasil com somente uma mala média e uma mochila, para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. A mala pesou 14 Kg e contou com roupas a mais, em virtude das previsões do tempo, envolvendo chuva e frio, além do fato de que faria a experiência em bicicleta e depois a pé. 

Ao chegar à Espanha, tive que revisar tudo de novo, tirar o que podia e despachar a mala até Santiago de Compostela. Ao todo, restaram-me uma calça de abrigo, 3 pares de meias, duas blusas térmicas, uma blusa corta vento e uma impermeável, roupas íntimas e algumas camisetas. Tive ainda que comprar um poncho impermeável para proteger a mochila e o resto do corpo.

Há vários relatos de peregrinos do Caminho que vão deixando as coisas pelo caminho. Outros, após a chegada a Santiago de Compostela, ainda avançam até Finesterra para realizar o ritual mais marcante de desapego final, com a queima das roupas utilizadas na jornada.

Quem começar com muito peso, logo de início, bem rapidamente, vai ter uma noção clara dessa dinâmica reflexiva sobre a carga das coisas desnecessárias, já na primeira caminhada ou pedal, terá uma noção clara do que virá a seguir. 

Ao conversar com uma pessoa que encontrei na subida do Cebreiro (uma das maiores subidas do Caminho), ela disse que era seu primeiro dia de caminhada e que iria revisar tudo ao chegar no próximo albergue.

No conforto do mundo atual, fomos acostumamos a ter muito e a carregar pela vida coisas que pouco precisamos. Na jornada do Caminho, reaprendemos a viver, com aquilo que nos basta para existir.
Qual o nível de desforço e/ou desconforto que carregar tanta carga exige psicologicamente de você, em termos de estresse, obrigações ou contas a pagar? É justificado tal desforço? Você realmente não pode abrir mão dos excessos? Aos poucos, a jornada permitirá a introjeção de respostas a esses questionamentos.

O simbolismo da desconexão material é o da partida, da dessoma, da morte, quando enfim, retornaremos à mãe terra, sem nada levarmos conosco. Uma libertação final de todos os lastros e vinculações à matéria, um passo espiritual a ser vislumbrado antecipadamente na jornada pelo Caminho. 

Desapego material, nesse sentido, não é uma perda, mas sim, uma libertação espiritual ainda em vida. Trata-se de uma alforria metafórica dos fardos de consumo criados na vida neurótica, que a Psique do Caminho demonstra não mais precisar ser assim vivida.

O Caminho de Santiago irá permitir essa libertação experencial a você, pelo menos por tais momentos. E aos poucos, sentirá mais leveza espiritual. Esse é um dos grandes aspectos importantes de aprendizagem do Caminho, saber dar valor ao que é essencial e ao que deve ser realmente carregado consigo. Ser ao invés de ter, riqueza em termos de experiências, afetividade, sabedoria e não em bens materiais.

Das coisas que eu levei comigo pelo Caminho, devido ao frio e à chuva, sei que sem elas não teria terminado a jornada. Eram bens materiais essenciais, não desapegáveis. Quanto aos outros, fiz bem em nos desapegos realizados na jornada.

Quando cheguei ao Brasil, em retorno à jornada, ainda vislumbrei flash desses momentos e sempre que posso, continuo a desapegar-me das coisas dia a dia.