segunda-feira, 19 de março de 2018

A Desconexão

A primeira coisa a se fazer na chegada ao local onde irá iniciar sua jornada pelo Caminho é a desconexão. Não é fácil desconectar-se de quem se ama, da família, da vida cotidiana deixado no Brasil, mas esse é um dos requisitos para se atingir a plenitude das vivências perante a Psique do Caminho. 
Por mais que se busque racionalizar sobre o assunto, a prática da desconexão não é algo fácil. Quando se chega a hora de iniciar a jornada no Caminho de Santiago de Compostela, você deverá tomar essa decisão de se isolar consigo e cortar a comunicação.

A melhor saída, quando realmente a desconexão tiver que acontecer, é viver seu processo de imediato. Desligue-se de tudo e todos. Desative suas redes sociais, não entre na sua conta de e-mail, assim como dos programas de mensagens instantâneas e desligue ou suspenda seu celular do Brasil.  
Muita gente terá dificuldades já de cara, com essa primeira técnica de imersão na Psique do Caminho. 

Resistências em Psicanálise, são mecanismos de defesa inconsciente do Ego. Trata-se de defender o conforto emocional já existente em determinado modelo de vida, que agora será colocado em questionamento e ressignificação.  

Por isso, no primeiro dia do Caminho, quando sentir as resistências contra a desconexão, procure entender que isso será a sua primeira dinâmica terapêutica em curso. Coloque em mente que esse tempo a ser dedicado ao Caminho é somente uma desconexão temporária. Imagine como seria se tivesse que se desconectar em definitivo de quem ou do que se ama e faça uma reflexão sobre como tais pessoas e objetos são importantes a você.

Esse é um treino essencial, para você poder entender que o fluxo da vida requer saber lidar tanto com as conexões, quanto com as desconexões. Elas não se excluem, são faces da mesma moeda, em momentos distintos da nossa existência.

Por exemplo, no campo profissional, investir na carreira, seu esforço e seu tempo, é uma desconexão com o restante dos prazeres da vida, que momentaneamente são deixados de lado, com vistas a futuras conexões em melhores condições.

Assim também ocorre no Caminho de Santiago de Compostela, onde será exigido que você faça temporariamente uma desconexão, com vistas à melhoria dela, no patamar a seguir. Mentalize que, diferentemente da morte, as coisas e as pessoas lá permanecerão como estão. Você não perdeu nem perderá nada nos dias a seguir no Caminho. Apenas fará um recesso pessoal em prol de ganhos futuros.

Se ficar com sua cabeça lá, na vida cotidiana, preocupado com o que deixou, não conseguirá fazer a imersão necessária na Psique do Caminho. Estará preso mentalmente ao Brasil e isso será uma forma de fuga de sua terapêutica e os desafios dela.

Adentrar à Psique do Caminho pressupõe que você abra seu espaço mental aos insights da jornada, ao processo de conexão com o arquétipo do herói peregrino em sua conexão com esse inconsciente coletivo lá estabelecido e cristalizado há séculos.

Quem bloqueia de início esse processo, já começa em resistência defensiva desnecessária e acaba por não aproveitar tudo o que o Caminho pode lhe oferecer. Se há males que vem para o bem, também há desconexões que fazem bem. Entender essa necessidade, permite treinar sua capacidade meditativa, libertando-se das amarras de suporte advindas do meio e das pessoas.

Desconectar-se não significa que irá deixar de pensar nas pessoas ou sobre sua relação com elas. Pelo contrário, a desconexão é somente comunicacional. Elas farão parte de suas elaborações, porém, dentro daquilo que será trabalho na sua psique na jornada.

Nos momentos da jornada, quando vierem à sua mente imagens das pessoas de sua vida, isto será um sinal da terapia em curso. Deixe a sua mente flutuar. Veja o que virá com acuidade. Imagens, sentimentos, desejos, traumas, inquietações são sinais daquilo que está a ser trabalhado em sua psique.

Mas para isso acontecer, você deverá ter feito a desconexão com todos, ou ainda estará preso ao processo da realidade do Brasil e assim, bloqueará a terapêutica. Preste atenção também na dinâmica diárias das desconexões, a cada cidade, a cada hospedaria, novos encontros, novas conexões do Caminho. No dia seguinte, cedinho chegará a hora de arrumar tudo, desconectar-se novamente e seguir em frente. 

A nossa existência não é diferente do Caminho, há que se saber conectar-se a algo ou alguém, quando oportuno, e seguir em frente em desconexão, quando necessário. Arrumar as coisas, erguer a cabeça e seguir em frente, faz parte do roteiro existencial de todos nós.

Seguir em frente faz parte deste processo de libertação da mente, especialmente quando não se vê outras saídas, será a hora de desconectar-se e seguir em frente. Quem faz o Caminho de Santiago e aplica a técnica da desconexão e consegue levar isso depois, para a sua vida cotidiana, cresce em liberdade, independência e em opções. Passa a ver com tranquilidade este processo.

Por isso que, durante o caminho, preste bastante atenção neste processo de chegar e partir, seu contínuo diário dentro do fluxo do Cosmos.