A primeira coisa a
se fazer na chegada ao local onde irá iniciar sua jornada pelo Caminho é a
desconexão. Não é fácil desconectar-se de quem se ama, da família, da vida
cotidiana deixado no Brasil, mas esse é um dos requisitos para se atingir a
plenitude das vivências perante a Psique do Caminho.
Por mais que se busque
racionalizar sobre o assunto, a prática da desconexão não é algo fácil. Quando
se chega a hora de iniciar a jornada no Caminho de Santiago de Compostela, você
deverá tomar essa decisão de se isolar consigo e cortar a comunicação.
A melhor saída,
quando realmente a desconexão tiver que acontecer, é viver seu processo de
imediato. Desligue-se de tudo e todos. Desative suas redes sociais, não entre
na sua conta de e-mail, assim como dos programas de mensagens instantâneas e
desligue ou suspenda seu celular do Brasil.
Muita gente terá
dificuldades já de cara, com essa primeira técnica de imersão na Psique do
Caminho.
Resistências em Psicanálise, são mecanismos de defesa inconsciente do
Ego. Trata-se de defender o conforto emocional já existente em determinado
modelo de vida, que agora será colocado em questionamento e ressignificação.
Por isso, no
primeiro dia do Caminho, quando sentir as resistências contra a desconexão,
procure entender que isso será a sua primeira dinâmica terapêutica em curso. Coloque em mente
que esse tempo a ser dedicado ao Caminho é somente uma desconexão temporária.
Imagine como seria se tivesse que se desconectar em definitivo de quem ou do
que se ama e faça uma reflexão sobre como tais pessoas e objetos são
importantes a você.
Esse é um treino
essencial, para você poder entender que o fluxo da vida requer saber lidar
tanto com as conexões, quanto com as desconexões. Elas não se excluem, são
faces da mesma moeda, em momentos distintos da nossa existência.
Por exemplo, no
campo profissional, investir na carreira, seu esforço e seu tempo, é uma
desconexão com o restante dos prazeres da vida, que momentaneamente são
deixados de lado, com vistas a futuras conexões em melhores condições.
Assim também ocorre
no Caminho de Santiago de Compostela, onde será exigido que você faça temporariamente
uma desconexão, com vistas à melhoria dela, no patamar a seguir. Mentalize que, diferentemente
da morte, as coisas e as pessoas lá permanecerão como estão. Você não perdeu
nem perderá nada nos dias a seguir no Caminho. Apenas fará um recesso pessoal
em prol de ganhos futuros.
Se ficar com sua
cabeça lá, na vida cotidiana, preocupado com o que deixou, não conseguirá fazer
a imersão necessária na Psique do Caminho. Estará preso mentalmente ao Brasil e
isso será uma forma de fuga de sua terapêutica e os desafios dela.
Adentrar à Psique
do Caminho pressupõe que você abra seu espaço mental aos insights da jornada,
ao processo de conexão com o arquétipo do herói peregrino em sua conexão com
esse inconsciente coletivo lá estabelecido e cristalizado há séculos.
Quem bloqueia de
início esse processo, já começa em resistência defensiva desnecessária e acaba
por não aproveitar tudo o que o Caminho pode lhe oferecer. Se há males que vem
para o bem, também há desconexões que fazem bem. Entender essa necessidade,
permite treinar sua capacidade meditativa, libertando-se das amarras de suporte
advindas do meio e das pessoas.
Desconectar-se não
significa que irá deixar de pensar nas pessoas ou sobre sua relação com elas.
Pelo contrário, a desconexão é somente comunicacional. Elas farão parte de suas
elaborações, porém, dentro daquilo que será trabalho na sua psique na jornada.
Nos momentos da
jornada, quando vierem à sua mente imagens das pessoas de sua vida, isto será
um sinal da terapia em curso. Deixe a sua mente flutuar. Veja o que virá com
acuidade. Imagens, sentimentos, desejos, traumas, inquietações são sinais
daquilo que está a ser trabalhado em sua psique.
Mas para isso
acontecer, você deverá ter feito a desconexão com todos, ou ainda estará preso ao
processo da realidade do Brasil e assim, bloqueará a terapêutica. Preste atenção
também na dinâmica diárias das desconexões, a cada cidade, a cada hospedaria,
novos encontros, novas conexões do Caminho. No dia seguinte, cedinho chegará a
hora de arrumar tudo, desconectar-se novamente e seguir em frente.
A nossa existência
não é diferente do Caminho, há que se saber conectar-se a algo ou alguém,
quando oportuno, e seguir em frente em desconexão, quando necessário. Arrumar
as coisas, erguer a cabeça e seguir em frente, faz parte do roteiro existencial
de todos nós.
Seguir em frente
faz parte deste processo de libertação da mente, especialmente quando não se vê
outras saídas, será a hora de desconectar-se e seguir em frente. Quem faz o Caminho
de Santiago e aplica a técnica da desconexão e consegue levar isso depois, para
a sua vida cotidiana, cresce em liberdade, independência e em opções. Passa a
ver com tranquilidade este processo.
Por
isso que, durante o caminho, preste bastante atenção neste processo de chegar e
partir, seu contínuo diário dentro do fluxo do Cosmos.
