Um dos símbolos arquetípicos
da imortalidade no oriente é a ave fênix. Sua percepção indica que chegou a
hora de partir. Em sua morte, há um fogo terminal que a transforma em cinzas.
Tal ritual de retorno ao inorgânico é essencial para que, no passo seguinte,
ela volte a renascer, com todo o seu esplendor.
No Caminho de
Santiago, os dias são exatamente assim. O ciclo dois dias é igual aos ciclos da
vida. Aprende-se que as coisas devem terminar para que outras comecem com vigor.
A única coisa certa, dia após dia, é a existência da jornada a seguir, a mediar
esses dois momentos.
Como todo processo de
renascimento, o término é, antes de tudo, um novo começo. Todo fim a ser vivido
é apenas uma etapa de um novo renascimento. Esse simbolismo da fênix está
impresso na Psique do Caminho.
Portanto,
observar o contínuo diário deste ritual habilita o peregrino, imerso na
terapêutica do Caminho, a vivências mortes e renascimentos em sua vida. A
vivenciar o fogo terminal, que transforma tudo o que ficou para trás em cinzas,
das quais surgem um novo ser ao final.
Como diria a lei de
Lauvosier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma na essência da vida.
Das cinzas irás, das cinzas voltarás. O Caminho é o ritual de aprender um novo sentido
existencial para o luto psíquico.
Passagem do quê e
para quê? Tudo depende do momento e daquilo que o peregrino busca em sua
jornada. Ninguém chega ao Caminho de Santiago sem uma busca. Pode-se apenas
buscar lazer e conhecimento turístico, ou pode-se buscar mais, movido por
forças psicológicas inconscientes ao encontro de seu autoconhecimento interior,
uma busca existencial. Em se tratando desse
último tipo de busca, seu processo inconsciente, assim como o simbolismo da
fênix, permitirá as transmutações necessárias em seu ser.
Como diria Jung, tudo está em conformidade com
o seu arquétipo vivido dentro das demandas individuais em conexão ao
inconsciente coletivo. Logo, algo só perceptível para quem não deseje tais
compreensões. Peça e será atendido. Questione as profundezas de seu ser perante
a Psique do Caminho e acesse a terapêutica das almas dos peregrinos.
Na prática, todos
os que aceitam ao chamado do Caminho de Santiago sofrem de um tipo de pulsão
de vida, a impelir sua jornada. Porém, em seu curso, sofrerão uma pulsão de
morte, até que, dia a dia, possa renascer das cinzas de um novo ser, revigorado
pela jornada.
Em termos
psicanalíticos, o arquétipo da fênix está intimamente ligado ao arquétipo do
herói, pois uma vez iniciada sua missão, o ritual da jornada somente será completado
pelas transmutações de seu ser. Tudo o que deixou para trás, tudo o que ressignificou
para frente.
O
único que poderá ativar esse processo de renascimento é você. Não há mestres ou
xamãs no Caminho, só há você e sua fênix, sua busca, sua história e suas demandas
de crescimento existencial.
Pode
parecer estranho, mas pulsões de morte, nesse sentido, são parte essencial da
experiência humana, são motores de novas buscas, ou seja, de mais vida. Nesse
contexto, só quem não tem o medo da morte e ativa o fogo terminal da partida,
consegue renascer das próprias cinzas e obter mais e mais vida.
