Tem dias em que tive vontade de cantar e acompanhar os passarinhos coloridos. Tive dias em que até recitei poesias mentalmente criadas naquele momento, emanadas da epifania do inconsciente, em pleno processo de euforia, misturados com endorfinas e dopamina.
Em certos momentos,
o fato de você caminhar, parar e tirar uma foto de paisagem, ou quando o Sol
surge após algumas nuvens e tudo passa a fazer um sentido maravilhoso, você
começa a perceber que existe algo a maior e que dá sentido a tudo no Universo.
Nesses momentos,
aquela vista da imensidão à sua frente, tudo se faz precioso demais e não cabe
mais dentro de você, de tamanha felicidade instantânea, cujos megabytes da
fotografia digital não conseguem registrar.
Quiçá, nas máquinas
fotográficas do futuro possamos captar e registrar mais sensações e, uma vez
lidas, possam reproduzir tais momentos únicos da vida no Caminho, cuja memória
cerebral ainda é o único espaço de conservação.
Tem dias em que se
vê tantas flores, de tantas cores, abelhas, bichinhos, corredeiras de pequenos
riachos a criar uma trilha sonora inenarrável de tamanha força da natureza. Nem se precisa de
fones de ouvido, pois a trilha sonora ressona em sua mente, ora em cantorias
desafinadas, ora em forma de orquestras, sob uma alegria matutina dos
passarinhos.
Tem dias em que dá
vontade de abrir os braços, abraçar uma árvore, como se nesse ato se fosse
possível abraçar tudo o que você está sentido. Nesses momentos de gratidão
cósmica, surge uma imensidão de amor por tudo à sua volta.
Como descrever isso
tudo dito acima com exatidão em palavras? Não sei se é possível. Nas manhãs dos
primeiros dias da jornada, sentir o friozinho na barriga, a expectativa de
começar e a alegria ao dar os primeiros passos ou as primeiras pedaladas. Uma
pressa danada surge, misturada com desejo de libertar-se no Caminho.
Da emoção na
bicicleta, na descida final para Santiago pelo Caminho Francês, à
intensificação dos passos na reta final pelo Caminho Português, rolou muita
endorfina e prazer mesclados com a sensação de missão cumprida.
De todas as pessoas
que conheci, pessoas normais, atletas e aventureiros do Caminho, vi uma paz de
espírito com a qual comunguei em vários momentos, em quaisquer condições de
tempo, adversas ou não. Todos irmanados no desafio com afinidade, simplicidade
e cumplicidade.
Nos olhos de todas
aquelas pessoas, vê-se que um outro mundo é possível, que poderemos viver com
menos, em contato com a natureza e simplicidade. Naquelas
cidadezinhas pelo Caminho, preciosas, onde um bom e justo prato de comida te
espera. No regozijo de uma cama simples de albergue, para uma noite de sono
profundo, parece que a vida passa a fazer mais sentido.