quinta-feira, 7 de março de 2019

Epifanias do Caminho

Há dias de Sol no Caminho de Santiago de Compostela cuja vida me sorriu intensamente. Há dias mágicos no Caminho impregnados do orvalho da manhã, do cheiro da terra molhada, a preencher seu olfato de prazeres e variedades.


Tem dias em que tive vontade de cantar e acompanhar os passarinhos coloridos. Tive dias em que até recitei poesias mentalmente criadas naquele momento, emanadas da epifania do inconsciente, em pleno processo de euforia, misturados com endorfinas e dopamina.

Em certos momentos, o fato de você caminhar, parar e tirar uma foto de paisagem, ou quando o Sol surge após algumas nuvens e tudo passa a fazer um sentido maravilhoso, você começa a perceber que existe algo a maior e que dá sentido a tudo no Universo.

Nesses momentos, aquela vista da imensidão à sua frente, tudo se faz precioso demais e não cabe mais dentro de você, de tamanha felicidade instantânea, cujos megabytes da fotografia digital não conseguem registrar.

Quiçá, nas máquinas fotográficas do futuro possamos captar e registrar mais sensações e, uma vez lidas, possam reproduzir tais momentos únicos da vida no Caminho, cuja memória cerebral ainda é o único espaço de conservação.

Tem dias em que se vê tantas flores, de tantas cores, abelhas, bichinhos, corredeiras de pequenos riachos a criar uma trilha sonora inenarrável de tamanha força da natureza. Nem se precisa de fones de ouvido, pois a trilha sonora ressona em sua mente, ora em cantorias desafinadas, ora em forma de orquestras, sob uma alegria matutina dos passarinhos.

Tem dias em que dá vontade de abrir os braços, abraçar uma árvore, como se nesse ato se fosse possível abraçar tudo o que você está sentido. Nesses momentos de gratidão cósmica, surge uma imensidão de amor por tudo à sua volta.

Como descrever isso tudo dito acima com exatidão em palavras? Não sei se é possível. Nas manhãs dos primeiros dias da jornada, sentir o friozinho na barriga, a expectativa de começar e a alegria ao dar os primeiros passos ou as primeiras pedaladas. Uma pressa danada surge, misturada com desejo de libertar-se no Caminho.

Da emoção na bicicleta, na descida final para Santiago pelo Caminho Francês, à intensificação dos passos na reta final pelo Caminho Português, rolou muita endorfina e prazer mesclados com a sensação de missão cumprida.

De todas as pessoas que conheci, pessoas normais, atletas e aventureiros do Caminho, vi uma paz de espírito com a qual comunguei em vários momentos, em quaisquer condições de tempo, adversas ou não. Todos irmanados no desafio com afinidade, simplicidade e cumplicidade. 

Nos olhos de todas aquelas pessoas, vê-se que um outro mundo é possível, que poderemos viver com menos, em contato com a natureza e simplicidade. Naquelas cidadezinhas pelo Caminho, preciosas, onde um bom e justo prato de comida te espera. No regozijo de uma cama simples de albergue, para uma noite de sono profundo, parece que a vida passa a fazer mais sentido.