No dia seguinte ao
finalizar a primeira jornada pelo Caminho, tive uma manhã e uma tarde muito
agradável em Santiago de Compostela, visitando a vários locais de interesse
histórico, incluindo a catedral e o sepulcro do apóstolo Tiago (Yacobo).
Foi um dia
especial. As energias e a dopamina da conclusão da jornada traziam uma paz e
contentamento. Entretanto, uma última lição me aguardava para ser ensinada ao
final do dia.
Essa dinâmica final
da Psique do Caminho começou no meio da tarde quando, de repente, comecei a ter
algumas tonturas e sem nenhuma explicação aparente. Estava bem alimentado, descansado e hidratado.
O quadro persistia.
Como não tinha nenhum tipo de assistência disponível e não poderia acionar o
seguro saúde, já que não poderia atrasar minha viagem de retorno. Fiquei
receoso com o ocorrido, mas tive que seguir para o aeroporto a noite, mesmo com
os sintomas presentes.
Perto
da hora do embarque tive uma piora e visando prevenir qualquer eventualidade
durante o voo, em caso de algo de pior viesse a ocorrer, comuniquei meu contato
de segurança no Brasil sobre a situação.
Coloquei
um papel no meu bolso com o telefone do Brasil, sintomas iniciais e o que
poderia ter ocorrido, orientações a proceder, em caso óbito, durante o voo. Interessantemente,
após o embarque, os sintomas simplesmente desapareceram. O voo acabou ocorrendo
dentro da normalidade e, como estou escrevendo este texto, felizmente não era
nada de grave. Detalhe, não retornou quando desembarquei em Barcelona.
Tal lição derradeira
acabou sendo um marco importante na finalização da experiência perante a Psique
do Caminho de Santiago de Compostela. No dia seguinte, já
em Barcelona, fiquei o dia todo a indagar-me sobre o ocorrido e como. Dentro do
processo de individuação da terapia junguiana, aquilo significaria a morte e um
consequente renascimento pós-Caminho?
Para Jung, a
“psicologia do renascimento” expressa uma experiência de transcendência da
vida, dentro de uma realidade psíquica, não palpável, mas impactante.
Na noite anterior,
ainda no aeroporto, não tive medo de morrer, logo após encarar sozinho o
Caminho de Santiago. Subi no avião com a certeza de que tinha cumprido minha
missão e, se aquele deveria ser meu final, estava preparado para ele.
Simbolicamente,
aprendi, com a Psique do Caminho, que a morte pode ser a conclusão de uma
jornada dessa missão existencial chama da vida. Encarar o seu simbólico
e renascer a ela, é algo a ser ido por todos os peregrinos que aceitam ao
chamado e enfrentam o desafio para o qual foram escalados.
Morrer não deve ser
um problema. Para quem acessou à Psique do Caminho um dia em sua vida, esse
será somente um momento de passagem. Nesse sentido, há uma ritualística transcendental
a ser aprendida, um ritual sagrado que tem suas origens na mística dos Celtas.
O renascimento enquanto transmutação
subjetiva é uma dádiva desse aprender a morrer. Você pode até não perceber as
modificações ocasionadas na sua estrutura interior após o Caminho. Isso pode
levar anos, décadas até ser percebido. Mas o processo de renascimento do seu
self estará em curso. Tive esse insight ao sair vivo e renascido daquele avião.
Tive claro, também, o fato de que a vida deve ser vivida em outras formas de sentido. Há que
se assumir as responsabilidades inerentes a quem recebeu o chamado e conseguiu
completar sua jornada pelas terras da Galícia.
Heróis não
são somente os que aceitam o arquétipo presente da Psique do Caminho e adentram
as trilhas desta aventura. A conclusão de sua jornada espiritual requer seu
retorno à sua terra.
Nesse
retorno, será a hora de assumir as responsabilidades existenciais, que serão a
decorrência natural do chamado para o qual foram escolhidos. Essa será a
última lição, a maior de todas, aquela cuja aprendizagem não só legitimará toda
a sua participação nessa experiência e o que virá a seguir.
Trata-se do
encontro do sentido de existir, que só vem quando, em face da morte, percebemos
como não temos nada a perder e assim, estamos livres a agir e dedicar nosso
tempo ao melhor.