quinta-feira, 7 de março de 2019

A Última Lição


No dia seguinte ao finalizar a primeira jornada pelo Caminho, tive uma manhã e uma tarde muito agradável em Santiago de Compostela, visitando a vários locais de interesse histórico, incluindo a catedral e o sepulcro do apóstolo Tiago (Yacobo).
Foi um dia especial. As energias e a dopamina da conclusão da jornada traziam uma paz e contentamento. Entretanto, uma última lição me aguardava para ser ensinada ao final do dia.
Essa dinâmica final da Psique do Caminho começou no meio da tarde quando, de repente, comecei a ter algumas tonturas e sem nenhuma explicação aparente.  Estava bem alimentado, descansado e hidratado.

O quadro persistia. Como não tinha nenhum tipo de assistência disponível e não poderia acionar o seguro saúde, já que não poderia atrasar minha viagem de retorno. Fiquei receoso com o ocorrido, mas tive que seguir para o aeroporto a noite, mesmo com os sintomas presentes.

Perto da hora do embarque tive uma piora e visando prevenir qualquer eventualidade durante o voo, em caso de algo de pior viesse a ocorrer, comuniquei meu contato de segurança no Brasil sobre a situação.

Coloquei um papel no meu bolso com o telefone do Brasil, sintomas iniciais e o que poderia ter ocorrido, orientações a proceder, em caso óbito, durante o voo. Interessantemente, após o embarque, os sintomas simplesmente desapareceram. O voo acabou ocorrendo dentro da normalidade e, como estou escrevendo este texto, felizmente não era nada de grave. Detalhe, não retornou quando desembarquei em Barcelona. 

Tal lição derradeira acabou sendo um marco importante na finalização da experiência perante a Psique do Caminho de Santiago de Compostela. No dia seguinte, já em Barcelona, fiquei o dia todo a indagar-me sobre o ocorrido e como. Dentro do processo de individuação da terapia junguiana, aquilo significaria a morte e um consequente renascimento pós-Caminho?

Para Jung, a “psicologia do renascimento” expressa uma experiência de transcendência da vida, dentro de uma realidade psíquica, não palpável, mas impactante.  

Na noite anterior, ainda no aeroporto, não tive medo de morrer, logo após encarar sozinho o Caminho de Santiago. Subi no avião com a certeza de que tinha cumprido minha missão e, se aquele deveria ser meu final, estava preparado para ele.

Simbolicamente, aprendi, com a Psique do Caminho, que a morte pode ser a conclusão de uma jornada dessa missão existencial chama da vida. Encarar o seu simbólico e renascer a ela, é algo a ser ido por todos os peregrinos que aceitam ao chamado e enfrentam o desafio para o qual foram escalados.

Morrer não deve ser um problema. Para quem acessou à Psique do Caminho um dia em sua vida, esse será somente um momento de passagem. Nesse sentido, há uma ritualística transcendental a ser aprendida, um ritual sagrado que tem suas origens na mística dos Celtas.

O renascimento enquanto transmutação subjetiva é uma dádiva desse aprender a morrer. Você pode até não perceber as modificações ocasionadas na sua estrutura interior após o Caminho. Isso pode levar anos, décadas até ser percebido. Mas o processo de renascimento do seu self estará em curso. Tive esse insight ao sair vivo e renascido daquele avião.
            Tive claro, também, o fato de que a vida deve ser vivida em outras formas de sentido. Há que se assumir as responsabilidades inerentes a quem recebeu o chamado e conseguiu completar sua jornada pelas terras da Galícia.
            Heróis não são somente os que aceitam o arquétipo presente da Psique do Caminho e adentram as trilhas desta aventura. A conclusão de sua jornada espiritual requer seu retorno à sua terra.
            Nesse retorno, será a hora de assumir as responsabilidades existenciais, que serão a decorrência natural do chamado para o qual foram escolhidos. Essa será a última lição, a maior de todas, aquela cuja aprendizagem não só legitimará toda a sua participação nessa experiência e o que virá a seguir.
            Trata-se do encontro do sentido de existir, que só vem quando, em face da morte, percebemos como não temos nada a perder e assim, estamos livres a agir e dedicar nosso tempo ao melhor.