Isso ocorreu
durante a segunda peregrinação para a escrita deste livro, feita no Caminho
Português até Santiago de Compostela. Quando cheguei a Pontevedra e logo depois
de almoçar, acessei a internet e recebi a notícia de que minha Hanninha tinha
morrido no Brasil.
Foram 12 anos de
convivência e troca de afeto. Como não tenho filhos, aquela cachorrinha
representava emocionalmente um ser especial em minha vida. Todos os desafios
vividos até então, incluindo o projeto desta jornada à Psique do Caminho, contaram
com a presença, logo ali, sempre ao meu lado.
Como toda perda de
quem amamos dói muito, há um luto a ser vivenciado. Tal processo psíquico da
despedida pode até ser obstruído, evitado, mas em algum momento, ele terá que
ser sentido e vivido. O luto, em si, não
é algo a ser evitado, pois ele permite o reestabelecimento emocional da pessoa,
a partir da perda vivida. O que se evita é a dor de permiti-lo fluir, em seus
primeiros e mais sensíveis momentos.
Deixar-se vivenciar
o luto é essencial para a sua saúde psíquica. De nada adiantaria ficar preso nas
primeiras fases deste processo psíquico (negação, raiva). Há que se passar a
aceitação do ocorrido e assim, abrir-se para que a Psique do Caminho ajude
neste momento doloroso.
Claro que a velocidade
da vivência de todo o processo do luto, até que se chegue novamente a uma paz
emocional, depende de cada pessoa. Não se trata de um processo linear, mas a
Psique do Caminho pode ajudar em muito, a que as emoções voltem ao seu devido
lugar.
Ter essa perda da
Hanninha dentro do Caminho de Santiago de Compostela foi uma das vivências mais
emocionalmente impactantes da minha jornada. Nem os momentos contínuos de
vários dias sobre o frio e a chuva tiveram tamanha repercussão emocional em mim.
Tive que me retirar
ao albergue e ficar sozinho por todo aquele dia. Foi algo não esperado. A
imagem dela à porta de casa, durante o dia de saída de minha viagem estava
forte e as lágrimas corriam sem que pudesse evitar aquela dor inafastável da
perda.
Na manhã dia seguinte,
ainda sob o abalo sentido pela súbita perda, segui o Caminho entre Pontevedra e
Caldas de Reis, em silêncio, ora segurando as lágrimas, ora sendo invadido
pelos insights da Psique do Caminho.
A efemeridade da
vida chocava-se com a perenidade do Caminho. Como aquela lição deveria ocorrer
logo ali. Por que tamanho sentimento? Lá
pelo meio desta jornada diária, um insight de despedida e ressignificação da
partida começou a aflorar. Comecei a prestar atenção nas pedras do Caminho. Percebi
que algumas pessoas colocavam as pedras acima dos obeliscos indicativos da
jornada.
Comecei
a questionar o significado daquilo. Qual seria a simbologia subjetiva de cada
peregrino que fazia tal ritual? Quando mais caminhava, mais as pedras do
caminho e as colocadas nos obeliscos me chamavam a atenção.
No insight
recebido, tive a ideia de colocar uma pedrinha em memória da Hanninha no
próximo obelisco indicativo. Era como se eu estivesse a representar, com aquela
pedra, a imortalidade de minha amada cachorrinha.
Coloquei a pedrinha
no obelisco. Fiz minha mentalização e oração, pedindo que ela fosse ali
recebida de maneira imortal, para todo sempre do Caminho. Agradeci por todos os
bons momentos, os desafios e as vitórias que passamos juntos. Gratidão eterna,
minha Hanninha, por tudo o que você trouxe de bom para mim.
Quando fiz isso,
foi grande o impacto emocional e não pude conter as lágrimas que percorreram
meu rosto. Este local sagrado está marcado para sempre em minha memória. De maneira
interessante, dali para frente, durante a jornada, cada vez que eu pensava
nela, as pedras do caminham brilhavam aos meus olhos. Era como se ela agora
fizesse parte imortal do Caminho.
Comecei a sentir a presença
da Hanninha em todas as pedrinhas no Caminho. Cada vez que focava uma pedra no
chão, percebia sua presença e isso gerava imediatamente uma onda energética
reconfortante.
A sensação de dor
da perda, da ausência, começou a dar lugar a uma reconfortante percepção de
presença e isso foi inexplicavelmente revitalizador. O luto deixara de ser dor
e passara a ser pertencimento. Eu e ela estávamos ali, no Caminho, unidos pelas
pedrinhas da jornada. Segui em frente com coração em paz, com a certeza de que,
sempre estaremos pelo Caminho.
Veja como essa dinâmica
perante a Psique do Caminho significou uma ressignificação das perdas emocionais
e das partidas. Deixa-se de sofrer pela ausência e adota-se a percepção energética
que acalenta a presença, mantida viva a conexão espiritual possibilitada pela
geofísica do Caminho de Santiago de Compostela.
Postscriptum: muito
depois do retorno da jornada, foi entender algo que serviu para o entendimento
desse processo espiritual de cura vivenciado perante a Psique do Caminho. Ele
adveio do arquétipo da Cultura Celta.
Para os Celtas, as
pedras eram consideradas os seres vivos mais antigos do planeta. Portanto, nas
sociedades celtas, as pedras eram os elementos mais sagrados e dotados da
memória do planeta. Elas estavam presentes em seus rituais e, assim, até os
dias atuais, muitas linhas terapêuticas utilizam o poder vibracional das pedras
para seus processos e tratamentos.