quinta-feira, 7 de março de 2019

A Partida da Hanninha


Isso ocorreu durante a segunda peregrinação para a escrita deste livro, feita no Caminho Português até Santiago de Compostela. Quando cheguei a Pontevedra e logo depois de almoçar, acessei a internet e recebi a notícia de que minha Hanninha tinha morrido no Brasil.
Foram 12 anos de convivência e troca de afeto. Como não tenho filhos, aquela cachorrinha representava emocionalmente um ser especial em minha vida. Todos os desafios vividos até então, incluindo o projeto desta jornada à Psique do Caminho, contaram com a presença, logo ali, sempre ao meu lado.

Como toda perda de quem amamos dói muito, há um luto a ser vivenciado. Tal processo psíquico da despedida pode até ser obstruído, evitado, mas em algum momento, ele terá que ser sentido e vivido. O luto, em si, não é algo a ser evitado, pois ele permite o reestabelecimento emocional da pessoa, a partir da perda vivida. O que se evita é a dor de permiti-lo fluir, em seus primeiros e mais sensíveis momentos.

Deixar-se vivenciar o luto é essencial para a sua saúde psíquica. De nada adiantaria ficar preso nas primeiras fases deste processo psíquico (negação, raiva). Há que se passar a aceitação do ocorrido e assim, abrir-se para que a Psique do Caminho ajude neste momento doloroso.

Claro que a velocidade da vivência de todo o processo do luto, até que se chegue novamente a uma paz emocional, depende de cada pessoa. Não se trata de um processo linear, mas a Psique do Caminho pode ajudar em muito, a que as emoções voltem ao seu devido lugar.

Ter essa perda da Hanninha dentro do Caminho de Santiago de Compostela foi uma das vivências mais emocionalmente impactantes da minha jornada. Nem os momentos contínuos de vários dias sobre o frio e a chuva tiveram tamanha repercussão emocional em mim.

Tive que me retirar ao albergue e ficar sozinho por todo aquele dia. Foi algo não esperado. A imagem dela à porta de casa, durante o dia de saída de minha viagem estava forte e as lágrimas corriam sem que pudesse evitar aquela dor inafastável da perda.

Na manhã dia seguinte, ainda sob o abalo sentido pela súbita perda, segui o Caminho entre Pontevedra e Caldas de Reis, em silêncio, ora segurando as lágrimas, ora sendo invadido pelos insights da Psique do Caminho.

A efemeridade da vida chocava-se com a perenidade do Caminho. Como aquela lição deveria ocorrer logo ali. Por que tamanho sentimento? Lá pelo meio desta jornada diária, um insight de despedida e ressignificação da partida começou a aflorar. Comecei a prestar atenção nas pedras do Caminho. Percebi que algumas pessoas colocavam as pedras acima dos obeliscos indicativos da jornada.

Comecei a questionar o significado daquilo. Qual seria a simbologia subjetiva de cada peregrino que fazia tal ritual? Quando mais caminhava, mais as pedras do caminho e as colocadas nos obeliscos me chamavam a atenção.

No insight recebido, tive a ideia de colocar uma pedrinha em memória da Hanninha no próximo obelisco indicativo. Era como se eu estivesse a representar, com aquela pedra, a imortalidade de minha amada cachorrinha.

Coloquei a pedrinha no obelisco. Fiz minha mentalização e oração, pedindo que ela fosse ali recebida de maneira imortal, para todo sempre do Caminho. Agradeci por todos os bons momentos, os desafios e as vitórias que passamos juntos. Gratidão eterna, minha Hanninha, por tudo o que você trouxe de bom para mim.

Quando fiz isso, foi grande o impacto emocional e não pude conter as lágrimas que percorreram meu rosto. Este local sagrado está marcado para sempre em minha memória. De maneira interessante, dali para frente, durante a jornada, cada vez que eu pensava nela, as pedras do caminham brilhavam aos meus olhos. Era como se ela agora fizesse parte imortal do Caminho.

Comecei a sentir a presença da Hanninha em todas as pedrinhas no Caminho. Cada vez que focava uma pedra no chão, percebia sua presença e isso gerava imediatamente uma onda energética reconfortante.

A sensação de dor da perda, da ausência, começou a dar lugar a uma reconfortante percepção de presença e isso foi inexplicavelmente revitalizador. O luto deixara de ser dor e passara a ser pertencimento. Eu e ela estávamos ali, no Caminho, unidos pelas pedrinhas da jornada. Segui em frente com coração em paz, com a certeza de que, sempre estaremos pelo Caminho.

Veja como essa dinâmica perante a Psique do Caminho significou uma ressignificação das perdas emocionais e das partidas. Deixa-se de sofrer pela ausência e adota-se a percepção energética que acalenta a presença, mantida viva a conexão espiritual possibilitada pela geofísica do Caminho de Santiago de Compostela.

Postscriptum: muito depois do retorno da jornada, foi entender algo que serviu para o entendimento desse processo espiritual de cura vivenciado perante a Psique do Caminho. Ele adveio do arquétipo da Cultura Celta.

Para os Celtas, as pedras eram consideradas os seres vivos mais antigos do planeta. Portanto, nas sociedades celtas, as pedras eram os elementos mais sagrados e dotados da memória do planeta. Elas estavam presentes em seus rituais e, assim, até os dias atuais, muitas linhas terapêuticas utilizam o poder vibracional das pedras para seus processos e tratamentos.