quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Dias Desafiadores do Caminho

Literalmente o Caminho está cheio de desafios, mas não são somente desafios físicos. Há desafios emocionais e mentais durante a jornada, perante as quais o peregrino deve manter-se atento durante o Caminho.
Entenda. Desafios pessoais existem para serem vencidos. Cada qual tem seus próprios desafios. A saída, para enfrentar esses desafios, está na preparação antecipada, na prevenção do que poderia vir pela frente. 

Do ponto de vista emocional, os desafios do Caminho poderão ser variados. Desde conflitos com os companheiros de caminhada, brigas de casal, carências afetivas e até desequilíbrios emocionais individuais.

Principalmente, quanto aos conflitos interpessoais com as pessoas com que se faz a caminhada (familiares, amigos ou parceiro afetivo), o ideal é estabelecer de antemão um contrato de caminhada e regras de pacificação, em caso de desavenças.

Dar um tempo, evitar intensificar o conflito ao se encerrar prontamente o debate, caminhar em silêncio, nomear um mediador, são saídas possíveis a serem previstas de antemão para tais casos.

Quanto às questões emocionais envolvendo pessoas sobre acompanhamento psiquiátrico permanente, o ideal é avaliar a oportunidade da jornada com o profissional responsável. Se favorável, procure estabelecer com ele os resguardos e um canal de comunicação de emergência, para casos de necessidade durante a viagem.

Procure também levar os medicamentos usuais em quantidade certa para todo o período de percurso, assim como uma carta do médico indicando o tratamento a que está submetido para eventual acompanhamento por alguma equipe local, em casos de emergência.

Nunca pare seu tratamento sem autorização do seu médico, nem mesmo se, perante a Psique do Caminho, sinta-se bem e disposto o suficiente para tanto. Do ponto de vista sentimental, os desafios do Caminho podem vir desde a dificuldade de desconexão da vida cotidiana até a solidão na jornada quando, por mecanismos de defesa, fixa-se o pensamento na família deixada no Brasil. Há que se evitar tal ocorrência.

Quando maior o cansaço físico da jornada, maior será a tendência vivenciar os processos emocionais pendentes em sua psique. Se isso acontecer, a saída é manter o foco no desafio, nem pensar em desistir ou deixar se abater. Levante a cabeça, descanse, alimente-se bem, dar um tempo até que os ânimos se acalmem e você possa seguir em frente novamente.

Em certas circunstâncias, sob chuva, vento forte, nevoa, frio, gelo e até neve, o peregrino poderá ser testado em seus limites físicos. Isso também poderá ocorrer em dias de calor excessivo. Como se trata de uma jornada em campo aberto, por trilhas e áreas rurais, o clima incidirá diretamente sobre seu corpo e, por mais protegido que estejas, não há como se evitar essa incidência e seus efeitos gerais sobre seu ânimo.

Dores musculares eventuais, bolhas nos pés, problemas intestinais, podem comprometer momentaneamente a jornada e gerar desafios à sua continuidade. Para e os resolva a contento.
Em pontos específicos, há que se subir trilhas com lama e com água escorrendo, atravessar pequenos riachos que, mesmo não sendo profundos, podem exigir mais desforço físico, pés molhados e mal-estar observado. Especialmente relação aos pés, tenha uma sandália, um par de meias pronto para tais situações.

Há desafios quando o albergue (municipal ou paroquial) está lotado e você não consegue dormir pelo barulho do vizinho (por ex. roncos), ou quando não se acha um local adequado e acessível para se alimentar. Para tais casos, chegue cedo, programe-se melhor e antecipe-se a eventuais feriados nos roteiros a serem seguidos.

Aos religiosos, os desafios serão as provas postas aos peregrinos em seu ritual de passagem espiritual. Aos não religiosos, é hora de focar-se na resiliência, entendida como a capacidade de suportar os contrafluxos, contratempos, a criar um estado mental inabalável de força, capaz de resistir às adversidades.

Todos os peregrinos, sem exceção, vivenciaram dias desafiadores em sua jornada. Cada qual, dentro do contexto de sua experiência. Como não há volta para trás, há que se seguir em frente, em direção a Santiago de Compostela.

Desistir é possível? Sim, mas somente nas situações de alguma gravidade, em termos físicos, quando sua saúde está debilitada ou o desequilíbrio emocional rompeu com seu controle pessoal. Lembrando-se que, nos meses de extremo inverno, nada justifica a imprudência de desbravar os Caminhos nesta época, fechados por seu perigo real de vida.

No mais, dias desafiadores são para ser vencidos. Quem os vencer, aprenderá uma lição de resiliência para toda a sua vida. Durante o Caminho Francês, tive que encarar chuva e frio por cinco seguidos da jornada. Não foi nada fácil, especialmente quando se está na bicicleta e se encara tempestades seguidas. Porém, justo na chegada da Santiago de Compostela, o Sol apareceu para me receber e comprovar que tudo tem um sentido e os desafios são dados à altura das nossas forças.

O corpo humano possui potências fantásticas e os mais de 300.000 peregrinos, que completam o Caminho todos os anos, são prova maior dessa capacidade.