Uma das coisas que
acontece na jornada é a mudança da noção espacial. Especialmente no Caminhar, pequenas
distâncias passam a ressignificar grandes avanços a serem vencidos diariamente
(20 a 30 Km). A cada cidade,
parece que você avançou a outro país e passa a sentir as diferenças entre os
locais fortemente. Isso ocorre pelo desforço corporal necessário a vencer tais
distâncias, muito diferente da vida cotidiana, onde os veículos levam pessoas
facilmente a grandes distâncias assim, em minutos.
Essa desaceleração
colabora à introspecção e ao foco no ambiente que se está a vencer. Pode-se
observar detalhes das construções, das pessoas, do relevo, da vegetação e das
gentes de cada território visitado.
Isso colabora sobremaneira
no processo de reconexão com a natureza a ser vivenciada no Caminho, essencial
para o centramento do self na redescoberta do equilíbrio de si mesmo. As tecnologias
humanas são grandes avanços, mas retiraram o indivíduo de sua conexão com a terra
(solo) e os veículos automotores provocaram isso. Ganha-se velocidade, mas paradoxalmente
se perde a conexão corporal, desconectando-se a pessoa de seu meio.
Daí a importância
dessa ocorrência para a sua imersão na Psique do Caminho, seu “aterramento” e
abertura às vivências da jornada. Em dias de chuva e
frio, ou muito calor, tais jornadas resultaram na percepção de serem ainda mais
extensas. Quando se chega ao final delas, sente-se um misto de exaustão, com
alivio e deslumbramento perante o novo território atingido.
Como não poderia
deixar de ser, a dimensão tempo também é ressignificada. Os dias passam a ser
vividos em maior extensão e se sente claramente dois momentos importantes do
dia: o da jornada e da chegada.
Perde-se um pouco a
importância da noção de horas. Apenas importam os momentos do relógio inerentes
ao despertar, alimentar-se e dormir. Também se perde a importância da noção de
dias da semana e de dias do mês.
Abre-se aqui uma
janela atemporal na mente durante a jornada diária, onde passado e futuro
combinam-se durante a introspecção do presente. Essa flutuação
quântica faz o indivíduo transitar entre planos consciente e inconsciente,
dentro dessa meditação aeróbica diária. Fatos do passado
são analisados por seus efeitos no futuro, enquanto o presente serve de
ancoradouro da consciência e indicativo do contínuo da jornada em curso.
Dentro desse
processo terapêutico, há um retorno a si, deixando-se de lado as preocupações
diárias marcadas pelo relógio e pelas distâncias a serem percorridas. Como não há tempo e
espaço a ser contado, tudo pode ser mais simples, mais leve, com a consciência
livre para sua maior introspecção no processo em curso.
Como o nível de alteração
e aceleração dessas duas dimensões físicas acaba por implicar em mais ou menos
qualidade de vida e como a experiência do Caminho pode contribuir à melhoria de
sua vida, veja como isso poderá ser levado para a sua vida, após o término da
jornada.