segunda-feira, 28 de maio de 2018

As Sincronicidades Simbólicas

Durante sua marcha, há que se manter certo nível de isolamento, como já dito. Porém, em certos momentos, quando encontrar algum desconhecido e ele comece a conversar contigo, fique aberto a essa conversa e preste bastante atenção ao seu conteúdo.
Como diria Jung, a Inconsciente Coletivo leva o indivíduo à vivência de sincronicidades, ou seja, momentos de conexão entre inconscientes individuais, cuja troca é essencial auxiliadora ao processo de individuação.

Pode acontecer que, de repente, aquilo que você estava pensando momentos atrás, também fazia parte dos pensamentos daquela outra pessoa com quem parou para conversar, num encontro repentino e não esperado.

Em alguns dias de jornada pelo Caminho de Santiago, percebi isso várias vezes, especialmente quando estava a elaborar reflexões de contexto existencial. De repente, você está conversando sem querer com alguém e essa pessoa toca no assunto e solta uma informação complementar aos seus pensamentos. Bingo! Há uma sincronicidade confirmada em curso.

A lição é de que isto não ocorre somente no Caminho, mas a vida cotidiana está recheada de sincronicidades, as quais não damos a devida atenção. A diferença é que, no Caminho você estará mais atento a elas, a captar imediatamente sua ocorrência e a dar valor às informações recebidas.

Por exemplo, ao comer algo no balcão de uma padaria, surgiu uma conversa entre os peregrinos ali presentes e o assunto tinha direta relação com algo sobre amor que eu estava refletindo momentos antes. 

Fiquei impressionado com a afinidade das ideias, pois, de repente, as pessoas de países diferentes começaram a ressaltar ideias semelhantes às minhas sobre a vida afetiva. Em outra situação, numa parada, ao conversar com uma uruguaia, que atuava voluntariamente na atenção aos peregrinos no começo da subida do Cebrero, ela começou a me falar sobre o processo terapêutico do Caminho, sem saber que eu estava escrevendo um livro sobre o assunto.

Em outra passagem interessante neste mesmo dia, ocorreu logo após a árdua subida do Cebrero, em trecho que fiz empurrando a bicicleta, junto com os caminhantes. Em certo ponto, encontrei uma pessoa, com uma mochila gigantesca. 

Conversamos sobre coisas triviais, a beleza do dia, das flores, da vista, até que ela começou a falar do peso da mochila e que iria se desapegar das coisas assim que chegasse no próximo albergue. Eu havia escrito sobre isso na véspera.

O isolamento é providencial à introspecção do peregrino, mas quando perceber algo diferente e surgir um diálogo, permita-se alguma comunicação breve. Focar-se apenas na riqueza turística (turisgrinos) ou esportiva (espotigrinos) desta jornada, significa desperdiçar sua riqueza imaterial, a ser representada pela conexão que a todos une nessas trilhas sagradas.

Aos materialistas que precisa ver para crer, há que se dar atenção a esses momentos de comunhão mental entre as pessoas, pois muito do que se revela nessas conversas sincrônicas serão temas da metapsíquica de todos. Permita-se acessar a Psique do Caminho e vislumbre um novo mundo imaterial a sua frente.