Durante sua marcha,
há que se manter certo nível de isolamento, como já dito. Porém, em certos
momentos, quando encontrar algum desconhecido e ele comece a conversar contigo,
fique aberto a essa conversa e preste bastante atenção ao seu conteúdo.
Como diria Jung, a
Inconsciente Coletivo leva o indivíduo à vivência de sincronicidades, ou seja, momentos de conexão entre inconscientes
individuais, cuja troca é essencial auxiliadora ao processo de individuação.
Pode acontecer que,
de repente, aquilo que você estava pensando momentos atrás, também fazia parte
dos pensamentos daquela outra pessoa com quem parou para conversar, num
encontro repentino e não esperado.
Em
alguns dias de jornada pelo Caminho de Santiago, percebi isso várias vezes,
especialmente quando estava a elaborar reflexões de contexto existencial. De repente, você
está conversando sem querer com alguém e essa pessoa toca no assunto e solta
uma informação complementar aos seus pensamentos. Bingo! Há uma sincronicidade confirmada
em curso.
A lição é de que isto
não ocorre somente no Caminho, mas a vida cotidiana está recheada de
sincronicidades, as quais não damos a devida atenção. A diferença é que, no Caminho
você estará mais atento a elas, a captar imediatamente sua ocorrência e a dar
valor às informações recebidas.
Por exemplo, ao
comer algo no balcão de uma padaria, surgiu uma conversa entre os peregrinos
ali presentes e o assunto tinha direta relação com algo sobre amor que eu
estava refletindo momentos antes.
Fiquei
impressionado com a afinidade das ideias, pois, de repente, as pessoas de
países diferentes começaram a ressaltar ideias semelhantes às minhas sobre a
vida afetiva. Em outra situação, numa
parada, ao conversar com uma uruguaia, que atuava voluntariamente na atenção
aos peregrinos no começo da subida do Cebrero, ela começou a me falar sobre o
processo terapêutico do Caminho, sem saber que eu estava escrevendo um livro
sobre o assunto.
Em outra passagem
interessante neste mesmo dia, ocorreu logo após a árdua subida do Cebrero, em trecho
que fiz empurrando a bicicleta, junto com os caminhantes. Em certo ponto,
encontrei uma pessoa, com uma mochila gigantesca.
Conversamos sobre
coisas triviais, a beleza do dia, das flores, da vista, até que ela começou a
falar do peso da mochila e que iria se desapegar das coisas assim que chegasse
no próximo albergue. Eu havia escrito sobre isso na véspera.
O isolamento é
providencial à introspecção do peregrino, mas quando perceber algo diferente e
surgir um diálogo, permita-se alguma comunicação breve. Focar-se apenas na
riqueza turística (turisgrinos) ou esportiva (espotigrinos) desta jornada, significa
desperdiçar sua riqueza imaterial, a ser representada pela conexão que a todos
une nessas trilhas sagradas.