Durante a caminhada
ou pedalada no caminho, poderá ocorrer a chamada desconexão física, quando se
perde a noção de tempo e espaço, enquanto se avança em profundamente pessoal. Geralmente isto
ocorre depois de alguns quilômetros de iniciada a jornada diária e tende a
desaparecer quando o corpo começa a dar sinais de cansaço.
Quando se perde as
noções dimensionais de tempo e espaço, o corpo adentra ao modo automático do comportamento
repetitivo e a mente começa a flutuar sobre o inconsciente. Você perceberá a
chegada desse estágio adimensional quando começar uma autorreflexão íntima, ou
seja, quando os pensamentos começarem a aflorar. Momento em que o peregrino
atinge um limiar entre seu consciente e seu inconsciente e passa a refletir em
ambos os planos.
Do ponto de vista
neurológico, trata-se de um estado alterado de consciência, com a mente
adentrando a faixas de onda cerebrais mais longas e aptas a uma abertura ao campo
metapsíquico do indivíduo.
Nestes planos mais
profundos da cognição estão as chaves de acesso aos conteúdos represados, a
serem retrabalhados, nos insights, nos epifanias e prognósticos de transmutação
da existência do peregrino.
Tais ocorrências
levam em consideração a conexão deste estado alterado de consciência à Psique
do Caminho, com a egrégora ali formada, de mais de mil anos de experiências
humanas de busca espiritual ali firmadas.
Quando se perceber
assim, deixe-se levar nesta meditação reflexiva. Hora de focar no que deseja ou
naquilo que precisaria ser reavaliado em sua vida. Hora de evocar o que você deseja
para o seu futuro, seu papel e missão existencial, depois deste ritual de
passagem.
Por isso que o Caminho
de Santiago de Compostela é um momento de transmutação existencial para muita
gente que, ao passar pela experiência, realizar correções de rumo e muda o
sentido existencial de suas vidas.
Há que se ter
cuidado nos momentos de viver esse processo terapêutico da introspecção, pois,
nesse estado de consciência elevada, há que se ter um mínimo de atenção às
direções e ao trânsito local de veículos.
Em introspecção, há
o risco de não se ver uma das setas amarelas indicativas do Caminho a seguir e
passar direto. Logo, sempre fique atento às direções. Em outras
circunstâncias de introspecção, deixa-se de ter atenção ao trânsito,
especialmente em momentos que o peregrino divide espaço com carros em ruelas do
caminho.
Para quem está de
bicicleta, um grau a mais de atenção é requisitado. Além das direções e do
trânsito, há que se cuidar dos caminhantes nas trilhas. Devido à
introspecção, é muito comum aos peregrinos a pé não perceberem a chegada de
carros/bicicletas e levarem o maior susto. Por isso, quem está pedalando deve
avisar sua chegada, tocar de leve a sineta ou pedir licença em várias línguas:
“permiso”/”excuse-me”.
Fora isso,
aproveite ao máximo esta introspecção adimensional para também acessar sua
espiritualidade, abrir-se ao que transcende e é importante para você.