Quando estiver a
preparar sua viagem ao caminho, deverá fazer uma opção entre as três formas
aceitas de concluir o Caminho de Santiago de Compostela: a caminhar, de
bicicleta e a cavalo. A clássica forma de
se fazer o trajeto do caminho é a pé. Sem dúvida, mesmo para quem vai fazer o
trajeto mínimo, caminhar 100 Km em poucos dias não é uma coisa habitual e
requer certo preparo a ser feito. Agora imagine completar mais de 800 Km dessa
maneira, carregando uma mochila nas costas durante todo o percurso?
Pedalar, por outro
lado, pode ser uma boa, já que o trajeto apresenta uma altimetria que, apesar
de exigir fisicamente do ciclista em pontos específicos, será favorável em
grande parte, com retas em planícies.
Além disso, na
bicicleta se é possível carregar o peso das roupas e demais equipamentos em
alforjes, colocados nas laterais das rodas (traseiras e frontais), a livrar as
costas de qualquer peso. Há
ainda, aos com limitações físicas, as bicicletas elétricas, com motores
auxiliares ao pedalar dos peregrinos, que podem ser acionados em trechos de
maior esforço, nas subidas mais íngremes. Bicicletas de todos
os tipos podem ser alugadas no caminho e não necessitam ser compradas ou
levadas desde o Brasil. Isso pode facilitar e baratear o seu uso.
Entre o caminhar e
o pedalar, terás experiências totalmente diferentes, válidas e interessantes. Entretanto,
enquanto ao caminhar se “sente o chão do Caminho”, ao pedalar, “desliza-se
sobre ele”. Assim, a interação ao caminhar é sempre maior e mais intensa, mais
exigente e mais interessante ao peregrino de primeira viagem.
Porém, como dito,
ao caminhar sentirás o impacto contínuo sobre o seu corpo e especialmente pés,
joelhos e coluna vertebral sustentarão sua jornada. Logo, precisa estar saudável nestes pontos e os preservar e preparar para a jornada. Daí a preparação e os cuidados dos peregrinos
caminhantes serem mais exigidos.
Outra diferença
entre fazer o caminho a pé ou pedalando, estará na sua imersão à Psique do
Caminho. A pé a conexão será plena com as energias telúricas daquele solo
sagrado, no vagar lento e gradual com o qual coloca seu corpo em marcha e assim
facilita a meditação.
Sons da fauna
local, comunicação com pessoas, percepções sensoriais do ambiente ao redor,
trocas com as bioenergias de cada ambiente percorrido são melhor percebidas ao
caminhar. Tudo é mais ressaltado e sua imersão será vivida como desde os
primeiros peregrinos.
Em bicicleta, há
uma maior velocidade no percurso dos trajetos e menor impacto sobre o corpo.
Pode-se percorrer distâncias maiores diariamente e se fazer derivações a
observar áreas próximas ao caminho. Entretanto, terá menos contato com as
pessoas e com os detalhes da natureza à sua volta.
Tivemos as duas
experiências ao elaborar esta obra e aprovamos ambas. Tanto que decidimos
intercalar as próximas experiências futuras no Caminho, entre caminhar e
pedalar, por trechos diferentes, mas sempre com finalidades de imersão
espiritual e existencial.
A Psique do Caminho
é acessada independente do meio em que decida percorrer sua jornada, desde que
tenha tempo à reflexão e à conexão. Logo, caso vá de bicicleta, procure fazer
trajetos menores diários, para que tenhas tempo de interagir com mais
profundidade com as pessoas e a natureza no entorno imanente do Caminho.
Já vimos casos de
pessoas que querem e fazem 800 Km e 8 dias de pedal (100 Km/dia). Para tanto,
vão pelas estradas paralelas e não pelas trilhas. Pergunta, fora o desafio
pessoal e esportivo, qual será o nível de interação com a Psique do Caminho
nesses casos?
Não concordamos ou
recomendamos que você faça o Caminho sobre um cavalo. Isso retirará de sua
experiência o desforço pessoal exigido à imersão na Psique do Caminho. Utilizar-se do
desforço de outro ser, para cumprir o seu desafio, não parece ser algo
bioético e de acordo com o propósito libertário da jornada no Caminho.
Caso tenha
limitações físicas, há bicicletas de todos os tipos, quem podem perfeitamente
auxiliar a quem tais necessidades, com seus alforjes e motor elétrico auxiliar,
com os mesmos custos de se fazer a cavalo.
O trajeto a ser
percorrido é todo irregular. Como há diferentes pisos (asfalto, cimento,
pedras, cascalho, areia) isso poderia lesionar o animal. Seria capaz de lhe
gerar sofrimento e o levar a ser sacrificado.
Da mesma forma
biocêntrica, você não deve levar seu animal de estimação para o Caminho de
Santiago. Isso se faz
especialmente com cães e reflete uma medida inconsequente, ao expor o animal ao
estresse da jornada física e ao desgaste das “almofadinhas” das patas em atrito
contínuo e direto com os diferentes tipos de solo.
A exposição dos
animais em temperaturas diferentes, em atividade física intensa e contínua por
vários quilmetros, pode lhes ocasionar até a morte por exaustão. Outrossim,
não há locais na maioria das hospedagens e eles deveriam dormir do lado de
fora, no relento.
No caminho, há
vários cães soltos pertencentes às propriedades e já vi, pessoalmente,
princípios de briga entre eles e cães de um casal de peregrinos.
Deve-se avaliar o nível de carência e insegurança, repensar o porquê da ideia de
enfrentar seu desafio existencial, ao mesmo tempo em que obriga um animal a servir de apoio
emocional a esse propósito. Quem realmente ama seu “pet”, deixa-o em casa, seguro,
ileso e à sua espera, no retorno.