domingo, 24 de setembro de 2017

Caminhar ou Pedalar o Caminho de Santiago?

Quando estiver a preparar sua viagem ao caminho, deverá fazer uma opção entre as três formas aceitas de concluir o Caminho de Santiago de Compostela: a caminhar, de bicicleta e a cavalo. A clássica forma de se fazer o trajeto do caminho é a pé. Sem dúvida, mesmo para quem vai fazer o trajeto mínimo, caminhar 100 Km em poucos dias não é uma coisa habitual e requer certo preparo a ser feito. Agora imagine completar mais de 800 Km dessa maneira, carregando uma mochila nas costas durante todo o percurso?
Pedalar, por outro lado, pode ser uma boa, já que o trajeto apresenta uma altimetria que, apesar de exigir fisicamente do ciclista em pontos específicos, será favorável em grande parte, com retas em planícies.

Além disso, na bicicleta se é possível carregar o peso das roupas e demais equipamentos em alforjes, colocados nas laterais das rodas (traseiras e frontais), a livrar as costas de qualquer peso. Há ainda, aos com limitações físicas, as bicicletas elétricas, com motores auxiliares ao pedalar dos peregrinos, que podem ser acionados em trechos de maior esforço, nas subidas mais íngremes. Bicicletas de todos os tipos podem ser alugadas no caminho e não necessitam ser compradas ou levadas desde o Brasil. Isso pode facilitar e baratear o seu uso.

Entre o caminhar e o pedalar, terás experiências totalmente diferentes, válidas e interessantes. Entretanto, enquanto ao caminhar se “sente o chão do Caminho”, ao pedalar, “desliza-se sobre ele”. Assim, a interação ao caminhar é sempre maior e mais intensa, mais exigente e mais interessante ao peregrino de primeira viagem.

Porém, como dito, ao caminhar sentirás o impacto contínuo sobre o seu corpo e especialmente pés, joelhos e coluna vertebral sustentarão sua jornada. Logo, precisa estar saudável nestes pontos e os preservar e preparar para a jornada. Daí a preparação e os cuidados dos peregrinos caminhantes serem mais exigidos.

Outra diferença entre fazer o caminho a pé ou pedalando, estará na sua imersão à Psique do Caminho. A pé a conexão será plena com as energias telúricas daquele solo sagrado, no vagar lento e gradual com o qual coloca seu corpo em marcha e assim facilita a meditação. 

Sons da fauna local, comunicação com pessoas, percepções sensoriais do ambiente ao redor, trocas com as bioenergias de cada ambiente percorrido são melhor percebidas ao caminhar. Tudo é mais ressaltado e sua imersão será vivida como desde os primeiros peregrinos.

Em bicicleta, há uma maior velocidade no percurso dos trajetos e menor impacto sobre o corpo. Pode-se percorrer distâncias maiores diariamente e se fazer derivações a observar áreas próximas ao caminho. Entretanto, terá menos contato com as pessoas e com os detalhes da natureza à sua volta.

Tivemos as duas experiências ao elaborar esta obra e aprovamos ambas. Tanto que decidimos intercalar as próximas experiências futuras no Caminho, entre caminhar e pedalar, por trechos diferentes, mas sempre com finalidades de imersão espiritual e existencial.

A Psique do Caminho é acessada independente do meio em que decida percorrer sua jornada, desde que tenha tempo à reflexão e à conexão. Logo, caso vá de bicicleta, procure fazer trajetos menores diários, para que tenhas tempo de interagir com mais profundidade com as pessoas e a natureza no entorno imanente do Caminho.

Já vimos casos de pessoas que querem e fazem 800 Km e 8 dias de pedal (100 Km/dia). Para tanto, vão pelas estradas paralelas e não pelas trilhas. Pergunta, fora o desafio pessoal e esportivo, qual será o nível de interação com a Psique do Caminho nesses casos?

Não concordamos ou recomendamos que você faça o Caminho sobre um cavalo. Isso retirará de sua experiência o desforço pessoal exigido à imersão na Psique do Caminho. Utilizar-se do desforço de outro ser, para cumprir o seu desafio, não parece ser algo bioético e de acordo com o propósito libertário da jornada no Caminho.

Caso tenha limitações físicas, há bicicletas de todos os tipos, quem podem perfeitamente auxiliar a quem tais necessidades, com seus alforjes e motor elétrico auxiliar, com os mesmos custos de se fazer a cavalo.

O trajeto a ser percorrido é todo irregular. Como há diferentes pisos (asfalto, cimento, pedras, cascalho, areia) isso poderia lesionar o animal. Seria capaz de lhe gerar sofrimento e o levar a ser sacrificado.

Da mesma forma biocêntrica, você não deve levar seu animal de estimação para o Caminho de Santiago. Isso se faz especialmente com cães e reflete uma medida inconsequente, ao expor o animal ao estresse da jornada física e ao desgaste das “almofadinhas” das patas em atrito contínuo e direto com os diferentes tipos de solo.

A exposição dos animais em temperaturas diferentes, em atividade física intensa e contínua por vários quilmetros, pode lhes ocasionar até a morte por exaustão. Outrossim, não há locais na maioria das hospedagens e eles deveriam dormir do lado de fora, no relento.

No caminho, há vários cães soltos pertencentes às propriedades e já vi, pessoalmente, princípios de briga entre eles e cães de um casal de peregrinos.


Deve-se avaliar o nível de carência e insegurança, repensar o porquê da ideia de enfrentar seu desafio existencial, ao mesmo tempo em que obriga um animal a servir de apoio emocional a esse propósito. Quem realmente ama seu “pet”, deixa-o em casa, seguro, ileso e à sua espera, no retorno.