segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Acesso ao Caminho

O Caminho de Santiago é um chamado antigo a todos que desenvolvem um certo tipo psíquico de desejo de busca existencial e espiritual a ser trilhada. Claro que há inúmeras motivações diretas a percorrer o caminho, desde a mais tradicional, a religiosa cristã, de peregrinação até a Catedral de Santigo de Compostela, onde estariam os restos mortais do Apóstolo Tiago, até  a mera curiosidade turística ou o desafio desportivo de percorrer o trajeto.

Não obstante isso, com o tempo, o relato acumulado das experiências dos peregrinos passou a refletir aspectos psicológicos, demarcados e parecidos, a serem identificados por aqueles que se aventuraram no caminho.

São fartas as obras a relatar a ocorrência de um processo de interiorização e autorreflexão existencial, durante a jornada, uma verdade imersão em si, vivenciada em dias ininterruptos e exaustivos de caminhada ou pedal.

Há ainda relatos de verdadeiras mudanças de vida, de rumo, observadas depois de epifanias e insights preciosos obtidos na jornada, a transformar os peregrinos.

A hipótese é que, com o acúmulo de milhares de experiências individuais nesse sentido, formou-se ali um um “script” terapêutico, um arquétipo a ser vivenciado pelos peregrinos. A tal ocorrência, dá-se o nome de a "Psique do Caminho".

Logo, além desta peregrinação ser marcante pela vivência física deste trajeto, considerado patrimônio turístico da humanidade, o Caminho de Santiago de Compostela também poderia ser considerado uma oportunidade terapêutica.

Nele há um ritual de passagem transpessoal, uma transição entre algum lugar a outro dentre de si, uma reconfiguração pessoal, a que Jung chamaria de processo terapêutico de individuação.

A cada avanço no caminho, o corpo responderia aos estímulos recebidos dessa essência arquetípica do ambiente e a mente, passaria a operar em frequência elevada, permitindo o acesso a ondas cerebrais longas.

Neurofisiologicamente, seria desencadeado, a partir de caminhada ou pedalada contínuas, por horas e dias a fio, um campo mental propício aos pensamentos e análises aprofundadas sobre a existência e seus significados.

É nesse momento que a terapêutica do caminho ocorreria, com o acesso do peregrino às áreas profundas da mente, nas quais estariam os mais recônditos processos emocionais, as pulsões, as neuroses e as próprias soluções das demandas no inconsciente individual e coletivo, a serem transmutadas.

Neste processo de individuação, aos poucos vai se refazendo o centramento do self (psique individual), na reconstrução das estruturas individuais, a partir desta conexão com o arquétipo da Psique do Caminho.

Trata-se de uma oportunidade de reorganização existencial feita durante o trajeto, a qual ocorreria, de maneira terapêutica, na hipótese formulada.

Ao se tomar consciência desta ocorrência, todo peregrino poderia focar-se melhor a ser vivido em sua jornada, visando ampliar seus benefícios em termos de individuação. 

Ou seja, focar-se na terapêutica da jornada, capaz de direcionar esta rica experiência, a uma transmutação existencial a maior, a ser vivida nos Caminhos de Santiago de Compostela.