O Caminho de Santiago é um chamado antigo a todos que desenvolvem um certo tipo psíquico de desejo de busca existencial e espiritual a ser
trilhada. Claro que há inúmeras motivações diretas a percorrer o caminho, desde a mais
tradicional, a religiosa cristã, de peregrinação até a Catedral de Santigo de
Compostela, onde estariam os restos mortais do Apóstolo Tiago, até a mera
curiosidade turística ou o desafio desportivo de percorrer o trajeto.
Não obstante isso, com o tempo, o relato acumulado das
experiências dos peregrinos passou a refletir aspectos psicológicos, demarcados
e parecidos, a serem identificados por aqueles que se aventuraram no caminho.
São fartas as obras a relatar a ocorrência
de um processo de interiorização e autorreflexão existencial, durante a jornada,
uma verdade imersão em si, vivenciada em dias ininterruptos e exaustivos de
caminhada ou pedal.
Há ainda relatos de verdadeiras mudanças de vida, de rumo,
observadas depois de epifanias e insights preciosos obtidos na jornada, a transformar
os peregrinos.
A hipótese é que, com o acúmulo de milhares de experiências
individuais nesse sentido, formou-se ali um um “script” terapêutico, um arquétipo a ser vivenciado pelos peregrinos. A tal ocorrência, dá-se o nome de a "Psique do Caminho".
Logo, além desta peregrinação ser marcante pela vivência física deste trajeto, considerado patrimônio turístico da
humanidade, o Caminho de Santiago de Compostela também poderia ser considerado uma oportunidade
terapêutica.
Nele há um ritual de passagem transpessoal, uma transição
entre algum lugar a outro dentre de si, uma reconfiguração pessoal, a que Jung
chamaria de processo terapêutico de individuação.
A cada avanço no caminho, o corpo responderia aos
estímulos recebidos dessa essência arquetípica do ambiente e a mente, passaria
a operar em frequência elevada, permitindo o acesso a ondas cerebrais longas.
Neurofisiologicamente, seria desencadeado, a partir
de caminhada ou pedalada contínuas, por horas e dias a fio, um campo mental propício aos pensamentos e análises aprofundadas sobre a existência e seus significados.
É nesse momento que a terapêutica do caminho ocorreria, com
o acesso do peregrino às áreas profundas da mente, nas quais estariam os mais
recônditos processos emocionais, as pulsões, as neuroses e
as próprias soluções das demandas no inconsciente individual e coletivo, a serem transmutadas.
Neste processo de individuação, aos poucos vai se refazendo
o centramento do self (psique individual), na reconstrução das estruturas individuais, a partir desta conexão com o arquétipo da Psique do Caminho.
Trata-se de uma oportunidade de reorganização existencial feita
durante o trajeto, a qual ocorreria, de maneira terapêutica, na
hipótese formulada.
Ao se tomar consciência desta ocorrência,
todo peregrino poderia focar-se melhor a ser vivido em sua jornada, visando
ampliar seus benefícios em termos de individuação.
Ou seja, focar-se na terapêutica da jornada, capaz de direcionar esta rica experiência, a uma transmutação
existencial a maior, a ser vivida nos Caminhos de Santiago de Compostela.
