A leitura de Freud sobre a mente humana e suas neuroses,
entendida enquanto processo adaptativo da personalidade à vida em sociedade, é
essencial para compreender os desequilíbrios que não configuram transtornos psiquiátricos
da mente. Quando se vive em sociedade, parte da libido é castrada,
assim como os desejos, em prol da pacificação e do respeito ao espaço recíproco
dos demais. Daí que não existe vida social civilizada, sob Contrato Social, sem
neuroses recíprocas para alívio destas castrações normais da vida cotidiana.
Neuroses
são formas usuais de canalização das frustrações, dos desejos reprimidos pela
castração social, em forma de meios substitutivos de extravase das energias
libidinais das pulsões de vida, por exemplo, consumismo.
Não há sociedade sem
neuroses. Seu desequilíbrio só pode a ser indicado quando o indivíduo passa a
fazer mal a si ou a outrem. Geralmente isso ocorre nos excessos. Por exemplo, o
uso moderado de álcool para alívio das tensões versus seu vício diário incontrolável.
Quanto mais urbana
e aglomerada uma sociedade, mais neuroses adaptativas poderão ser verificadas
no dia a dia daquela população, pela redução do espaço de autorrealização dos
desejos.
Todavia,
há neuroses e neuroses. Elas refletem escolhas de canalização pulsional e
permitem o descarte das tensões internas, advindas do Ide (plano inconsciente
dos desejos) e controladas pelo Superego (plano inconsciente da moral e do
controle).
Nesse sentido, cada
indivíduo, estabelece para si um conjunto de estratégias de balanceamento de
sua psique na vida social e com ela segue a vida, com suas vantagens e
desvantagens inerentes a cada escolha.
Conclusão: não há
nada de sintomático com as neuroses do dia a dia, desde que não se faça mal a
si ou a outrem. Elas ajudam grande parte das pessoas a seguirem o fluxo da vida
adulta com suas exigências, a gerar equilíbrio pulsional e consequente
pacificação pessoal.
A terapêutica das
neuroses só começa quando o indivíduo passa a se sentir sufocado, deslocado e
sem sentido na sua vida cotidiana. Suas neuroses não conseguem mais substituir
suas pulsões e as tensões internas demandam novas buscas de sentido. Surge uma
insatisfação a maior, que não está sendo suplantada e assim, inicia-se um
chamado à mudança.
A busca é o sinal mais
evidente deste processo psicológico de mudança, de demanda por crescimento
pessoal e de construção de novos desafios e conquistas.
Nessa hora, pode
surgir uma crise íntima entre os apegos, daquilo que já foi conquistado e o
desejo do incerto, com um certo desconforto do que se busca, sobre o qual não
se tem noção clara do que e como será atingido.
Dúvidas e conflitos
internos abrem então o espaço para poder repensar e fazer um “sabático” da
vida, um período de reflexão, afim de se colocar as coisas no lugar.
O Caminho de
Santiago de Compostela poderia ser o local ideal para esse sabático. Ideal
porque permitiria afastar-se de sua vida cotidiana, suspender as conexões com
as pessoas e demais obrigações e assim, ter espaço e paz interior a repensar
sua existência.
Trata-se da
oportunidade de uma desconexão útil e necessária, pois no Caminho, haverá o
tempo, o silêncio, o contato com a natureza e a introspecção necessária aos
pensamentos sobre mudanças a serem implementadas.
Por isso, o Caminho
é precioso em termos terapêuticos, um verdadeiro tesouro arquetípico,
construído há mais de mil anos, dentro da “vibe” cristalizada no tempo, de
todos aqueles que por lá passaram em busca dessas mudanças existenciais.
Na
terapêutica de Jung, a individuação requer esse espaço para a mudança, nas
reflexões e aprofundamentos sobre o seu arquétipo da vida atual, a ser
transmutado. O que se quer, são melhorias em si, mudanças especiais.
Na jornada perante
a Psique do Caminho, é isso que será possibilitado ao peregrino, uma reflexão
sobre as neuroses aderidas, com vistas às mudanças, descartando aquilo não mais
adequado e acrescentando novas possibilidades à conjugação do equilíbrio
multifatorial (físico, emocional e mental) de sua existência futura.
