segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Busca por Mudanças

A leitura de Freud sobre a mente humana e suas neuroses, entendida enquanto processo adaptativo da personalidade à vida em sociedade, é essencial para compreender os desequilíbrios que não configuram transtornos psiquiátricos da mente. Quando se vive em sociedade, parte da libido é castrada, assim como os desejos, em prol da pacificação e do respeito ao espaço recíproco dos demais. Daí que não existe vida social civilizada, sob Contrato Social, sem neuroses recíprocas para alívio destas castrações normais da vida cotidiana.
Neuroses são formas usuais de canalização das frustrações, dos desejos reprimidos pela castração social, em forma de meios substitutivos de extravase das energias libidinais das pulsões de vida, por exemplo, consumismo.

Não há sociedade sem neuroses. Seu desequilíbrio só pode a ser indicado quando o indivíduo passa a fazer mal a si ou a outrem. Geralmente isso ocorre nos excessos. Por exemplo, o uso moderado de álcool para alívio das tensões versus seu vício diário incontrolável. 

Quanto mais urbana e aglomerada uma sociedade, mais neuroses adaptativas poderão ser verificadas no dia a dia daquela população, pela redução do espaço de autorrealização dos desejos.

Todavia, há neuroses e neuroses. Elas refletem escolhas de canalização pulsional e permitem o descarte das tensões internas, advindas do Ide (plano inconsciente dos desejos) e controladas pelo Superego (plano inconsciente da moral e do controle).

Nesse sentido, cada indivíduo, estabelece para si um conjunto de estratégias de balanceamento de sua psique na vida social e com ela segue a vida, com suas vantagens e desvantagens inerentes a cada escolha. 

Conclusão: não há nada de sintomático com as neuroses do dia a dia, desde que não se faça mal a si ou a outrem. Elas ajudam grande parte das pessoas a seguirem o fluxo da vida adulta com suas exigências, a gerar equilíbrio pulsional e consequente pacificação pessoal.

A terapêutica das neuroses só começa quando o indivíduo passa a se sentir sufocado, deslocado e sem sentido na sua vida cotidiana. Suas neuroses não conseguem mais substituir suas pulsões e as tensões internas demandam novas buscas de sentido. Surge uma insatisfação a maior, que não está sendo suplantada e assim, inicia-se um chamado à mudança.

A busca é o sinal mais evidente deste processo psicológico de mudança, de demanda por crescimento pessoal e de construção de novos desafios e conquistas.

Nessa hora, pode surgir uma crise íntima entre os apegos, daquilo que já foi conquistado e o desejo do incerto, com um certo desconforto do que se busca, sobre o qual não se tem noção clara do que e como será atingido.

Dúvidas e conflitos internos abrem então o espaço para poder repensar e fazer um “sabático” da vida, um período de reflexão, afim de se colocar as coisas no lugar. 

O Caminho de Santiago de Compostela poderia ser o local ideal para esse sabático. Ideal porque permitiria afastar-se de sua vida cotidiana, suspender as conexões com as pessoas e demais obrigações e assim, ter espaço e paz interior a repensar sua existência.

Trata-se da oportunidade de uma desconexão útil e necessária, pois no Caminho, haverá o tempo, o silêncio, o contato com a natureza e a introspecção necessária aos pensamentos sobre mudanças a serem implementadas.

Por isso, o Caminho é precioso em termos terapêuticos, um verdadeiro tesouro arquetípico, construído há mais de mil anos, dentro da “vibe” cristalizada no tempo, de todos aqueles que por lá passaram em busca dessas mudanças existenciais. 

Na terapêutica de Jung, a individuação requer esse espaço para a mudança, nas reflexões e aprofundamentos sobre o seu arquétipo da vida atual, a ser transmutado. O que se quer, são melhorias em si, mudanças especiais.

Na jornada perante a Psique do Caminho, é isso que será possibilitado ao peregrino, uma reflexão sobre as neuroses aderidas, com vistas às mudanças, descartando aquilo não mais adequado e acrescentando novas possibilidades à conjugação do equilíbrio multifatorial (físico, emocional e mental) de sua existência futura.