Uma das desconexões essenciais possibilitadas pelo Caminho de Santiago é vivenciar o desapego material pelas coisas que se possui. Essa "vibe" é logo sentida, desde o momento em que se começa a preparar a mala com os utensílios de viagem. A vontade é de levar pouca coisa. Tudo parecer ser um peso desnecessário, um fardo a ser carregado.
Mas na vida, no dia a dia, também não deveria ser assim? Quais os fardos, os pesos desnecessários, em termos de bens materiais, são carregados todos os dias, por milhares de pessoas. Será que se precisa de tanto?
Esses questionamentos surgem neste momento e tem muita ligação com a questão da sustentabilidade, da pressão da raça humana sobre a capacidade de suporte do planeta, atualmente em ritmo de destruição e câmbio climático, cujos maiores atingidos serão os próprios humanos.
O desapego material não significa abrir mão de tudo, por fanatismo radical ou coisa parecida. Significa abrir mão daquilo que é excessivo, desnecessário a ser levado no caminho da vida. Trata-se de uma forma de desconexão das coisas, em conexões que não são essenciais à vida.
Pode-se caminhar com menos. Pode-se ser feliz com menos, optando-se sim, por ter boas coisas, coisas de qualidade, duráveis e que facilitem a vida. Para tanto, há que se saber fazer escolhas e se dosar os impulsos ao consumo do que é desnecessário e descartável.
Saí com somente uma mala média e uma mochila para fazer o Caminho de Santiago da Compostela. A mala pesou 14 Kg e só contou com roupas a mais, em virtude das previsões do tempo, envolvendo chuva e frio em pleno final da primavera europeia no mês de junho.
Chegando a Ponferrada, tive necessidade de revisar tudo, tirar o que podia e despachar a mala até Santiago da Compostela. Descartei ainda embalagens, papéis e tudo o que havia de eliminável. Ao todo, me restaram uma calça de abrir, 3 pares de meias, duas blusas térmicas, uma blusa corta vento e uma impermeável, roupas íntimas e algumas camisetas. Tive ainda que comprar algo essencial, um poncho impermeável para proteger a mochila e o resto do corpo.
Chegando a Ponferrada, tive necessidade de revisar tudo, tirar o que podia e despachar a mala até Santiago da Compostela. Descartei ainda embalagens, papéis e tudo o que havia de eliminável. Ao todo, me restaram uma calça de abrir, 3 pares de meias, duas blusas térmicas, uma blusa corta vento e uma impermeável, roupas íntimas e algumas camisetas. Tive ainda que comprar algo essencial, um poncho impermeável para proteger a mochila e o resto do corpo.
Há relatos de pessoas que vão deixando as coisas pelo caminho. O processo de desapego vai se intensificando, na medida em que se entra a introspecção do processo psicoanalítico e espiritual dessa jornada. Vi realmente roupas e calçados deixados para trás.
Quem começa com muito, logo, bem rapidamente, vai ter uma noção clara do peso das coisas desnecessárias, já na primeira caminhada ou pedal. Vi isso com meus olhos, ao conversar com uma pessoa que subia o Cebreiro (uma das maiores subidas do caminho) e, durante nossa conversa, ela me disse que era seu primeiro dia de caminhada e que despacharia tudo ao chegar no albergue.
Algumas perguntas ficam a partir desta vivência. Por que na vida cotidiana há que se carregar tanto peso existencial por coisas materiais? Qual o nível de esforço e desconforto que carregar tanta carga exige de você? É justificado tal desforço? Você realmente não pode abrir mão de algo na próxima hospedaria da vida, logo ali na frente?
Quem começa com muito, logo, bem rapidamente, vai ter uma noção clara do peso das coisas desnecessárias, já na primeira caminhada ou pedal. Vi isso com meus olhos, ao conversar com uma pessoa que subia o Cebreiro (uma das maiores subidas do caminho) e, durante nossa conversa, ela me disse que era seu primeiro dia de caminhada e que despacharia tudo ao chegar no albergue.
Algumas perguntas ficam a partir desta vivência. Por que na vida cotidiana há que se carregar tanto peso existencial por coisas materiais? Qual o nível de esforço e desconforto que carregar tanta carga exige de você? É justificado tal desforço? Você realmente não pode abrir mão de algo na próxima hospedaria da vida, logo ali na frente?
Dentro da Psicanálise, abrir mão de certas coisas, deixar para trás, representa ao simbolismo da desconexão emocional com aquilo que não cabe mais nas nossas vidas. Desapego, nesse sentido, não é uma perda, mas sim uma libertação dos pesos emocionais. Trata-se de uma alforria simbólica de todos os fardos emocionais que não mais se quer carregar.
Talvez por isso o Caminho de Santiago implique em ritual de transformação a todos que o percorrer. Não há como realizar tal sequência de passos e não se desapegar daquilo que excede ao necessário. Daí um dos grandes aspectos importantes do caminho, saber dar valor ao que é essencial e ao que se quer realmente carregar consigo na vida.
Das coisas que eu levei comigo pelo caminho, devido ao frio e à chuva, sei que sem elas não teria terminado a jornada. Logo, são bens materiais essenciais, não desapegáveis. Quanto aos outros, fiz bem em deixá-los na mala e despachar tudo ao final do percurso, em Santiago da Compostela.
Das coisas que eu levei comigo pelo caminho, devido ao frio e à chuva, sei que sem elas não teria terminado a jornada. Logo, são bens materiais essenciais, não desapegáveis. Quanto aos outros, fiz bem em deixá-los na mala e despachar tudo ao final do percurso, em Santiago da Compostela.