Em 2019, recebi o segundo chamado do Caminho de Santiago de Compostela. Tratava-se da nova jornada do herói que deveria ser percorrida. Todavia, dessa vez, apesar de estar novamente imerso no Caminho Português, o desafio não mais seria o de percorrer, sob sol, dias de chuva ou intenso calor, as trilhas sagradas.
Agora, o desafio parecia maior e mais complexo, uma vez que exigiria dar um passo adiante, sem saber o que viria ou virá pela frente. Vencer o primeiro chamado, conseguir a preparação e as condições para realizar a primeira jornada, não mais seriam os obstáculos. Neste momento, as trilhas seriam espirituais e os sinais, cada vez mais sublimes e sutis.
A possibilidade de desvio ou até mesmo de desistência, é algo presente neste momento. Outros, acabam por se viciar, de alguma maneira, em recorrer de tempos em tempos a uma nova jornada ao Caminho, em novas peregrinações que dizem respeito ao primeiro chamado, mas de maneira alguma respondem ao segundo.
Pode-se até dizer que não existiria um "segundo chamado", algo para além da jornada de peregrinação pelas trilhas até a cidade de Santiago de Compostela. Porém, assim como muitos (talvez a grande maioria das almas viventes nesses milênios de sua existência) não tenham recebido o primeiro chamado em todos esses tempos, serão poucos a vivenciar o que deveria vir depois.
Digo, deveria, pois foi exatamente isso que percebi, em minhas meditações e contemplações: a necessidade de compreender o que ia além, se existiria algo mais, para aqueles que foram abençoados com o primeiro chamado. Se suas existências não poderiam ser glorificadas por missões, agora, para além das trilhas físicas, no retorno às suas vidas.
Para entender melhor o arquétipo da jornada do herói, algo contado e recontado na história humana (para saber mais, leia o "Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell), toda busca existência do predestinado(a) deve seguir alguns passos essenciais. O primeiro deles é o chamado à aventura. O segundo é a preparação. O terceiro é a imersão nos desafios de sua realização. E, por último, o retorno.
Mas no arquétipo da jornada do herói, o retorno não é apenas para demonstrar sua vitória diante dos desafios e provações do Caminho. O retorno também é o momento em que o vencedor presta o seu contributo, por toda a ajuda espiritual recebida para a consecução de sua jornada.
O retorno, nesse sentido, requer assumir a sua missão maior, o seu designo assistencial perante a sua comunidade. Cada retorno tem sua razão de ser. Mas cada missão depois do Caminho há que ser de engrandecimento existencial.
Veja, engrandecimento, longe de qualquer egolatria pessoal, a qual já deveria ter sido desbastada nas provações do Caminho, deve ser o contributo prestado à coletividade e nada mais. Cada qual na suas potencialidades e disponibilidades, mas sem esperar nada em troca. Uma vez que, a oportunidade da jornada já teria sido uma das maiores bênçãos recebidas em vida.
Quem ainda pede para si, no retorno do Caminho, ainda está longe de estar a altura do seu segundo chamado. Talvez por isso, a dificuldade em avançar a esse novo quadrante.
Interessantemente, meu segundo chamado foi este: o de colaborar e orientar para que mais peregrinos acessem ao entendimento de que o seu segundo chamado existe e o está esperando, desde que continuem na sua jornada existencial de aprimoramento espiritual.
Minha Missão Depois do Caminho talvez tenha esse caráter de contribuir com o esclarecimento e orientar para que "o melhor de tudo e o melhor para todos aconteça". Essa deve ser a bússola desta obra que se descortina agora. Passo a passo, iremos construí-la juntos aqui.
"Buen camino" abençoado a todos nós.
