segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Os Venenos no Caminho


Falando em questões humanitárias ou de melhoria da vida planetária, quem for fazer o Caminho de Santiago na primavera ou no verão, em algumas regiões agrícolas, será incomodado com o cheiro dos venenos (agrotóxicos) das plantações, em vinícolas e outros cultivos de frutas.
É bastante forte, incomoda e não há como fugir. Bem na hora da caminhada, cedo pela manhã, é que os agricultores estarão borrifando as plantas com esses produtos químicos, bem ao lado das trilhas do Caminho.

Isso quebra um pouco aquela ideia bucólica e de pureza ambiental da Europa. Apesar do uso de pesticidas e herbicidas ter controles mais rigorosos do que no Brasil, ainda assim, tais produtos não deixam de ser agrotóxicos.

Caso queira, leve uma máscara para evitar inalar esses produtos em quantidade. Jamais colha frutas do pé, cerejas e uvas, facilmente acessíveis pelo caminho, uma vez que estarão impregnadas desses produtos. 

Há até avisos dos próprios agricultores nesse sentido, alertando os peregrinos e os riscos de se ingerir as frutas recém-borrifadas com os agrotóxicos.

Lembre-se, além de ser furto, mesmo depois de borrifadas, há um período de carência química, até que esses produtos percam grande parte de sua ação e possam então ser comercializados para consumo humano.

Por seu turno, isso me levou durante a jornada pelo Caminho a refletir sobre o atual modelo insustentável de produção e consumo da humanidade. Pessoas demais, consumo demais, desejos demais, tudo aquilo que contraria a vibe que o peregrino irá vivenciar pelo Caminho.

Cabe a todos nós, uma reflexão sobre os excessos de consumo e seu impacto sobre a destruição do planeta. Após a 2.ª Grande Guerra Mundial, dizia-se que a humanidade morreria de fome, pelo seu crescimento vegetativo descontrolado, mas os venenos evitaram isso.

Agora são modificações genéticas aliadas aos venenos, a saída para se aumentar a produção de alimentos e atender aos mercados asiáticos, cada vez mais sedentos e sem limites na expansão superpopulacional.

Todo peregrino que se propõe a buscar um novo sentido existencial no Caminho, deve-se se colocar em análise introspectiva sobre seu legado, sua pegada pessoal, seu impacto existencial sobre o planeta.

Não haverá vida humana futura no planeta, sob as condições de expansão atual. Sem uma mudança de rumo, de cultura e de nível de discernimento global, estaremos fadados à extinção por vias climáticas ou conflitivas.

Repensar isso durante o Caminho de Santiago, especialmente durante as caminhadas rurais, ao respirar diretamente o veneno das plantações, poderá dar uma ideia de como se está agredindo o planeta para manter uma situação humana insustentável no longo prazo.

Todo peregrino irá viver diretamente as necessidades do “Minimalismo Existencial” em sua jornada. Carregar somente o necessário, abandonar o que não for preciso. Está é uma aprendizagem diária em que estiver imerso perante a Psique do Caminho.

O segundo passo, será focar-se nas reflexões sobre o Biocentrismo, sobre o fato de que não somos os legítimos proprietários do planeta. Há outras formas de vida, igualmente sujeitos de direito dessa jornada existencial. Logo, aproveite os venenos para refletir sobre isso.