sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Vivências nos Albergues

No albergue, você troca sua privacidade por economia e convivência coletiva. Geralmente, um público mais jovem tende a frequentar albergues turísticos pelo mundo. Diferentemente, no caso do Caminho de Santiago de Compostela, haverá um grande número de peregrinos de todas as idades nos albergues desta jornada.
Albergue com cortinas nos beliches
Como o custo de se hospedar em albergues é mais baixo, conforme o local e dependendo da época do ano, especialmente na alta estação (junho a setembro), os melhores albergues lotam todos os dias.

Existem três tipos de albergues no Caminho: os públicos (municipais), os paroquiais e os privados. Nos públicos e nos paroquiais, a estrutura é mais espartana e não se pode fazer reserva prévia. A lotação se faz por ordem de chegada, sendo aceitos peregrinos a partir das 12 ou 13 h, com obrigação de partir até as 10 h do dia seguinte. 

A preferência de entrada, a partir do horário pré-definido de acesso, é de primeiro alojar os caminhantes, depois os bicigrinos. Não se pode retornar ao albergue no dia seguinte e se paga uma contribuição de pequeno valor (até 10 Euros) pela hospedagem nos albergues públicos. Não há roupa de cama ou banho. Deve-se levar a sua e/ou um saco de dormir para cobrir os colchões.

Alguns albergues têm locais para guardar as bicicletas, mas poucos tem espaço para cavalos. Nos albergues privados, a estrutura é melhorada, assim como um preço mais elevado (10 Euros ou mais). Você poderá fazer reservas prévias, pagar em cartão de crédito e ainda utilizar as cafeterias e restaurantes próximos ou dentro do próprio estabelecimento. 

Em todos os tipos de albergues predominam os quartos coletivos, onde se tem que compartilhar o mesmo espaço em beliches, ora mistos, ora com quartos para cada um dos sexos.

Há albergues com quartos coletivos de até mais de cinquenta beliches. Alguns terão armários com chave para você guardar as coisas, porém, na maioria deles você deverá manter suas coisas consigo, a todo momento. 

Em locais mais rústicos, em certos albergues paroquiais na região rural do caminho, há que se colocar o saco de dormir no chão e ali se ajeitar para dormir. Não há beliches, nem colchões, mas todos recebem os peregrinos de braços abertos em grande parte do ano todo (atenção: uma parte deles fecha no inverno).

Ficar ou não em um albergue coletivo é uma opção financeira. Um quarto individual numa pensão ou hospedagem privada vai sair, no mínimo, pelo dobro do preço de um albergue equivalente. Um quarto em hotel, com banheiro privativo, o triplo ou mais.

Mas ficar no albergue coletivo também é uma opção vivencial, em prol da convivência com os companheiros. Isso terá reflexos diretos em relação ao processo terapêutico vivido perante a Psique do Caminho.

Com o mínimo de privacidade, no albergue requer-se dividir a experiência do Caminho com os outros peregrinos. Alguns chegam nos quartos coletivos falando alto, outros espalham as coisas, outros roncam, alguns trocam as roupas na sua frente. Tudo isso será compartilhado e você terá que se adaptar às diferenças.

Ainda com relação à privacidade, europeus não tem muito problema com a exposição íntima, podem circular de roupas íntimas sem problemas. Seu contexto de intimidade é diferente do nosso e não haverá conotação sexual nestes momentos, basta virar para o lado e ficar na sua. 

É muito interessante interagir com as pessoas encontradas nos albergues. Logo poderá observar sincronicidades nos assuntos, nos trejeitos entre os peregrinos e a empatia pela companhia de jornada.

Outro detalhe das sincronizações, está nos acoplamentos dos tempos das rotinas do dia. Geralmente nos horários de jantar, dormir e acordar, você perceberá que terá sono, fome e despertará com o grupo.

Quanto aos sentimentos, é aí que a coisa ganha mais sentido terapêutico. É comum haver também uma afinização de sentimentos do grupo e isso acaba por interferir de alguma maneira em seu contexto individual.

Por isso, evite albergues com um clima de festa ou de azaração turística, o qual estariam totalmente fora dos propósitos da jornada ao Caminho. Especialmente nas cidades maiores, com algum grau maior de turismo fora da jornada, há que se escolher bem onde ficar, para manter a vibe da Psique do Caminho.